No ínicio de mais um ano escolar…

Bom dia a todos ! Aproximando-se o novo ano lectivo, ouço frequentemente pessoas a comentar que “é tão bom” que não irão dar os bebés para um berçário ou creche, mas eles ficarão com os avós. Que bom e que descanso…

Tenho outra perspectiva e convido vos a repensar este lugar-comum. Analisar se seria realmente óptimo que um bebé de 4,5 ou 8 meses (dependendo da duração da licença de maternidade e férias da mãe) fique com os avós…

Claro, sem dúvida, que é melhor (salvo raras excepções) que um bebé fique com familiares com relações afectivas, numa casa particular, do que num berçário com outros tantos bebés carentes, ao cuidado de profissionais.

MAS: a pessoa que a natureza escolheu para melhor nutrir e apoiar um bebé, é a mãe (e o pai). Não é por acaso que assim é.

Numa fase crucial para o desenvolvimento psicológico, emocional e cognitivo do bebé e numa altura crítica para se estabelecer e fundamentar as bases para um vínculo seguro (secure attachment), o bebé é repentinamente afastado do seu primary caregiver e entregue ao cuidado de terceiros que, mesmo que bem intencionados, dificilmente poderão criar as condições emocionais ideais para o desabrochar do máximo potencial da criança.

Não duvido que haja imensos avós excelentes e que adoram os seus netos. Mas duvido que para um bebé de 5, 8 10 meses, seja adequado passar os seus dias com os avós!

O nosso mundo está em rápida e profunda mudança. Os valores antigos de educação, obediência, autoridade e hierarquia tornaram-se obsoletos. O mundo novo precisa de pessoas emocionalmente estáveis, criativas, que saibam juntar-se por ideais maiores, que tenham coragem de inovar, de experimentar, de correr riscos, de demonstrar vulnerabilidades, de se conhecer a si e ter abertura total para conhecer o outro.

Isto não são características que a maioria dos avós possa transmitir aos seus netos (havendo naturalmente excepções à  regra!)

Como podem os avós, com o seu “mindset” de ontem, nutrir um ser humano de amanhã na sua importantíssima fase inicial da vida?

(Não ponho em questão que uma criança de 4, 6, 12 anos não beneficie imenso de uma relação amorosa com os seus avós. Isso é excelente e importante. Mas um bebé pequeno que necessita de contacto físico intenso e quase permanente, de ser amamentado em livre demanda, de estar juntinho do seu primary caregiver- não fica bem com os avós. FACTO!)

(Para ir ao encontro do que muitos defendem, de que “it takes a village to raise a child” e por isso, na nossa sociedade ocidental de famílias nucleares pequenas, os avós cumprem uma função importante, quero acrescentar: as comunidades tribais, as tais “villages” a que essa frase se refere, eram constituídas por pessoas de varias idades que a criança conhecia desde que nasceu. O bebe não era entregue a outrem e desaparecia da vista da mãe por oito ou mais horas, todos os dias. A criança estava com quem quisesse e se sentisse bem, e enquanto era amamentada (geralmente durante vários anos) estava sempre perto da mãe.)
Concluo: temos de repensar as nossas prioridades. Temos de rever o nosso materialismo. Temos de nos informar. Entregar um bebé a quem quer que seja, deveria ser a última opção antes do desespero total e não uma atitude comum, bem vista e não reflectida.