Liberdade ou Negligência, Autonomia ou Abandono ?

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Liberdade ou Negligência, Autonomia ou Abandono?

Muito se fala em “liberdade” nos círculos de unschoolers e nos meios da educação alternativa. Os adultos estão de acordo que a educação tradicional inibe a liberdade da criança, limita o seu desenvolvimento emocional e físico, impede a manutenção da auto-estima e da motivação. Portanto, todos querem “dar liberdade” às crianças, com a melhor das intenções- a de lhes proporcionar uma vida sem coerção, manipulação e autoritarismos, em que cada criança viva e se desenvolva ao seu próprio ritmo, de acordo com as suas próprias motivações, seu grau de maturidade e suas capacidades físicas, mentais e emocionais. Na minha perspetiva, esse é realmente um objetivo importante, dos mais importantes neste percurso que é criar uma criança. Porém, tenho visto inúmeros casos em que me parece que a chamada liberdade roça a negligência, e que a assim considerada autonomia da criança não é mais do que abandono… A fronteira entre liberdade e negligência é, de facto, muito ténue. Para que uma criança cresça verdadeiramente “livre”, há determinadas condições que, na minha opinião, têm que ser salvaguardadas. Primeiro, têm que haver uma conexão emocional (idealmente um secure attachment!) entre pais e filhos, de modo a que os pais conheçam profundamente as capacidades e intenções dos seus filhos, tal como a fase de desenvolvimento em que esses se encontram, os seus medos, receios, dúvidas e interesses; a criança tem de se sentir emocionalmente segura e ligada a um (ou mais) primary caregivers, aos quais poderá sempre recorrer em completa confiança, se assim o desejar. Só estando emocionalmente bem nutrida e certa de uma base segura, que uma criança é verdadeiramente livre para se aventurar para onde e como sente ser adequado. Quando refiro que os pais precisam de conhecer bem seus filhos, não o digo no sentido de controlarem seus passos e exercerem avaliações, correções ou intromissões. Um adulto, primary caregiver, que está conectado com a criança, não precisa de a observar e analisar permanentemente a cada passo, para sentir em que estado ela se encontra, e que necessidades tem. Basta estar à distância que sente ser adequada para aquela criança. (Nalguns casos, a criança precisa de um adulto de referência sempre à vista, por vezes até sempre fisicamente ao lado, noutros casos basta saber onde está, ou até basta saber a hora a que volta ou o caminho para casa…. Depende da criança, da sua idade e do seu único estado de desenvolvimento.)

Vou dar alguns exemplos. Quando uma criança de dois ou três (ou até quatro!) anos anda sozinha (pode ser na floresta, na casa ou na quinta de amigos que foi visitar com os pais, num novo parque, numa festa, num centro comercial, num parque infantil, etc.) onde os pais ou adultos de referencia não estão à vista, para mim esta criança não é livre, mas negligenciada.
Vou explicar porquê: porque uma criança dessa idade não tem noção do tempo, muitas vezes pouco sentido de orientação, capacidade de socialização imatura, capacidade de resolver problemas imatura ou até inexistente, possibilidades internas de reconhecer perigos, evitar acidentes ou gerir impulsos muito imaturos. Penso que uma criança precisa de modelos de orientação adultos. Aprende a gerir as suas atitudes, seus comportamentos, a agir de acordo com valores e respeitar o outro, a gerir conflitos e resolver desafios apenas ATRAVÉS DO EXEMPLO DE ADULTOS-modelos de referência afetiva. É através da presença não invasiva, não controladora, mas presente e prestável, de adultos, que a criança aprende como atuar nas mais diversas situações da vida. Só quando tem maturidade suficiente para reconhecer e satisfazer as suas próprias necessidades, resolver desafios e encontrar soluções para os seus problemas, tal como respeitar os outros, que uma criança está verdadeiramente capaz de, sem adultos, explorar espaços, andar sozinha ou com outras crianças, enfim- ser autónoma. Mesmo nas tribos ancestrais, que tanta gente dá como exemplos ideais, em que as crianças eram autónomas muito cedo, nunca acontecia o que vejo tantas vezes hoje em dia: que crianças de um, dois ou três anos andam “ao deus dará” sem adultos à vista, sem os adultos sequer saberem onde estão os seus filhos pequenos. Nas tais tribos havia sempre adultos por perto, a seguir as suas tarefas diárias mas a servir de porto seguro e orientação para os pequenos, para além de haver códigos de comportamentos bastante explícitos.

Curiosamente, as crianças que são “empurradas para a água fria” demasiado cedo, sob a impressão enganosa de liberdade e autonomia, exibem comportamentos que indicam claramente que não estavam preparadas. Por exemplo, costumam “agarrar-se” ao primeiro adulto que aparece- pedem lhe para brincar, para ajudar a subir árvores, para procurar brinquedos, etc. Segundo, pedem a qualquer adulto que aparece, indiferenciadamente, para satisfazer as suas necessidades- dar comida ou agua, levar a casa de banho, atar sapatos, por vezes até dar colo! Nada disso é sinal de autonomia, mas sim de problemas no relacionamento entre pais e filhos, por vezes até problemas de vínculo.

Outra das minhas preocupações relativas à má interpretação da noção de liberdade, é a ideia de que uma criança livre é aquela que pode fazer tudo conforme lhe apetece. Aí, encontro famílias em que as crianças não tomam banho, apenas comem pão semanas a fio, passam o dia exclusivamente a jogar jogos de computador, andam sempre com a mesma roupa meses a fio, quer faça calor ou frio, não lavam os dentes, não colocam os cintos de segurança no carro, ou outras coisas que tais- porque não querem, e os pais (sob a ilusão enganosa de lhes dar liberdade) aceitam passivamente. Por vezes até lhes dá jeito, pois evitam conflitos- digo eu!

Isto também não é liberdade mas, na minha opinião, negligência. Uma criança até muito tarde, por vezes até aos 9 ou 10 anos ou mais, não tem capacidade cognitiva para prever o resultado das suas ações a médio ou a longo prazo. Não consegue imaginar que lhe faça mal comer apenas doces ou ficar de meias molhadas e pés frios durante horas. Estando dentro de casa, não consegue prever que necessita de um casaco e botas quando sai. Não prevê os efeitos que um filme para adultos lhe possa causar ou as consequências de um acidente de viação. Também para isso estamos cá nós, adultos, para encaminhar a criança e dar-lhe o apoio e estímulo necessário, até ela não o necessitar mais. Não através de castigos ou ameaças, mas através do nosso exemplo e de explicações adequadas ao grau de maturidade de cada criança. Como pais, temos de distinguir entre vontade e necessidade da criança. Julgo ser nosso dever de satisfazer as necessidades dos nosso filhos, mas não é nosso dever de satisfazer e aceitar todas as vontades.

Para terminar, cito um exemplo do maravilhoso John Holt, do seu livro “Freedom and beyond” (traduzido e um pouco modificado por mim, pois já não me lembro das palavras ao certo); em que ele pergunta- qual é a criança que tem mais liberdade, aquela cuja mãe diz “ Depois das aulas vamos a natação, a seguir ao ballet, e depois do jantar vamos visitar a tia e depois ao cinema” OU a criança cuja mãe diz: “Vai brincar lá para fora, mas não brinques com fogo, não atires pedras nem vás para aquela casa em ruínas!” A resposta de Holt é: a criança que tem liberdade, é a segunda.
Compreendem porquê?