Desescolarização como caminho para a liberdade pessoal e para uma economia sustentável

timo flotet

Desescolarização como caminho para a liberdade pessoal e para uma economia sustentável

(Tradução livre, adaptação e comentários de Agnes Sedlmayr, a partir do original de Rosa Goldmann, do site SEIN, de Junho 2014)

Entendemos por “desescolarização” um processo de libertação dos condicionalismos incutidos e interiorizados ao longo de muitos anos de educação (geralmente institucional). Trata-se, concretamente, da libertação de modelos autoritários e hierárquicos, de manipulações, da ideia de castigo, recompensa e concorrência, para abraçar uma mundividência que assenta em solidariedade, respeito e desenvolvimento individual.

“A desescolarização é o pressuposto base de qualquer movimento para a libertação do ser humano” dizia já em 1971 Ivan Illich, outrora um pensador mundialmente conhecido, mas hoje quase esquecido. Nos anos 70, Illich foi um dos pioneiros da ideia de aprendizagem livre e do movimento pós-crescimento económico, através dos seus livros “A desescolarização da Sociedade” e “A chamada crise energética” (Die sogenannte Energiekrise). Mas que relação existe entre a crítica à economia desenfreada e a crítica à aprendizagem escolar ? E como seria um mundo além da educação alienada e além de todas as pressões do crescimento económico?

O crescimento, dizem políticos e representantes da economia, é imprescindível para garantir bem-estar, paz e liberdade. Mas cada vez menos pessoas acreditam nestas invocações.

É demasiado óbvio que o crescimento económico não favorece todos mas apenas uma pequena camada de ricos e muito ricos. Em muitos países, os danos provocados pelo crescimento económico ultrapassam em larga escala os benefícios: destruição do meio-ambiente, stress, ruído, solidão e aumento do fosso entre as camadas sociais. Na luta global pelo aumento do PIB, muito daquilo que torna a vida preciosa, é descartado. Mais ainda: o crescimento económico destrói a capacidade regenerativa dos ecossistemas globais e, desta forma, é uma ameaça à sobrevivência da humanidade. Perante as consequências destrutivas do crescimento económico desenfreado, houve já nos anos 70 uma procura intensiva por alternativas à sociedade de consumo. Esta procura de alternativas assiste hoje a um renascimento significativo, com viragem para uma ideia que se baseia no caminho para uma “sociedade pós-crescimento”.

“Pós- crescimento” não é um conceito rígido e inalterável para denominar um sistema completamente diferente, inventado por um único pensador, mas é um conceito que abrange um conjunto de inúmeras iniciativas, de pessoas que pretendem mudar algo no seu quotidiano; desde os ativistas políticos que se manifestam contra a destruição do meio-ambiente e das sociedades, às/aos cientistas que procuram soluções para áreas específicas da economia e infraestrutura (como por exemplo, a sustentabilidade ecológica e social do sistema de transporte ou do sistema de saúde), entre imensos outros.
O que todos têm em comum é que não procuram soluções técnicas, mas em vez disso vêm potenciais noutras formas de organização social. Porém, o tema da Aprendizagem e da Escola ainda é pouco questionado, embora esteja intimamente ligado com a questão do crescimento económico.

O que se ensina na escola?

O sistema de ensino atual desenvolveu-se a par do sistema económico.
Com a expansão de uma economia mundial capitalista, a partir do século XVIII, houve a necessidade de otimizar as pessoas para a engrenagem económica. Visto que o sentido do sistema económico não está na satisfação das necessidades individuais ou no desenvolvimento da personalidade, mas antes na acumulação de capital, um sistema de ensino resultante destas estruturas não coloca no seu centro as necessidades da criança ou o seu desenvolvimento pessoal.
(…)

Uma das maiores críticas ao sistema de ensino atual é que ” não se aprende o suficiente”…
De facto, há muito que é conhecido que o ser humano aprende através da curiosidade e não do medo, através do seu próprio interesse e não por obrigação e realização de tarefas cujo sentido é pouco compreensível. Mas apesar da crítica, não houve alterações substanciais nos últimos 150 anos; continuam os currículos arbitrariamente definidos por estruturas superiores abstratas, a divisão do mundo em “matérias” e horas pré-definidas, avaliação através de notas ou outros brindes, etc.
Porquê? Será que os Políticos, Diretores das escolas e Pedagogos são demasiado teimosos para implementar os dados mais básicos da Psicologia? Ou será até que existem pressões diversas, que os impedem? Será, por acaso, que a escola não serve em primeiro lugar à transmissão de “matéria”, mas que existe outro objetivo subjacente?
Quem ousa olhar para a escola não apenas como sistema disfuncional, mas quem questiona quais os objetivos que esta realmente atinge, encontra algumas respostas interessantíssimas.

O desfasamento

A escola treina um modelo que é imprescindível na futura função do aluno na economia: o desfasamento. O aluno é preparado para realizar tarefas permutáveis, recebendo em contrapartida pontos num sistema abstrato de castigos e recompensas, em vez de seguir seus próprios interesses e desenvolver únicas capacidades que possam contribuir na satisfação de necessidades humanas.

O mais tardar no ensino secundário, todos os alunos apercebem-se que não se trata da compreensão dos conteúdos, mas apenas do avançar na escala de pontuação- e aqui está uma aprendizagem que a escola transmitiu com sucesso. O desfasamento entre o ser humano e a atividade que exerce possibilita que uma pessoa esteja disposta a ocupar um qualquer lugar na economia, substituível, descartável e com tarefas permutáveis (mas no qual, de preferência, ganhe “pontos” ou outro prémios materiais ou sociais).

Apenas se uma pessoa desaprende seguir os seus próprios impulsos e aceita como verdade imutável que trabalhar significa realizar tarefas que outros lhe incumbiram, significa orientar a vida de acordo com um sistema de avaliação externo, é que pode funcionar e ser aceite num sistema económico global, em que cada passo é analisado a partir de critérios de eficiência e maximização produtiva. Em vez do interesse e significado pessoal está o ordenado, um valor monetário abstrato que faz acreditar ser a recompensa por um trabalho frequentemente considerado extenuante, sem sentido e destruidor- exatamente como na escola as notas, os elogios e outros brindes substituem a experiência gratificante da aprendizagem por si mesma.

Deste modo, a mudança do ambiente de aprendizagem e a superação da economia de crescimento desenfreado estão intimamente ligados. A libertação de atividades desfasadas e desconectadas da pessoa que as realiza, e a construção de ambientes de aprendizagem que possibilitam o livre desenvolvimento da personalidade são as duas faces da mesma moeda.

Aprender e crescer numa “sociedade pós-crescimento”

Como seria uma economia diferente e diferentes espaços de aprendizagem? Há muitas propostas no âmbito da discussão acerca duma “sociedade pós-crescimento”; a maioria concorda com a ideia de que a economia terá de ser mais multifacetada- para além do trabalho por ordenado haverá cooperativas de produção e consumo, empresas geridas solidariamente, trabalhos a partir da própria casa, da oficina e da horta e em oficinas locais comunitárias, tal como informação de livre acesso para todos. Este modelo exige conhecimentos técnicos, manuais e práticos aprofundados de muitas pessoas solidárias- o pressuposto para tal é uma curiosidade para além do consumo pré-fabricado e uma capacidade de aprendizagem ao longo de toda a vida.

Numa sociedade assim, as pessoas não passarão 40 horas semanais num local de trabalho altamente especializado e estéril, onde não pode haver crianças. Em vez disso- e quase todas as propostas vão neste sentido- o trabalho por ordenado reduzirá para cerca de 20 horas semanais. Isto significa que as pessoas serão menos especializadas e terão mais tempo para a aquisição permanente de novos conhecimentos. Em hortas comunitárias, oficinas abertas e centros de solidariedade as crianças estarão naturalmente presentes e aprenderão através do exemplo e da entreajuda.

Numa sociedade assim é necessária uma atitude que Illich denomina a “desescolarização”: uma atitude de confiança em si e nos outros e coragem de conhecer e experimentar coisas novas, em vez da procura de “autoridades” (especialistas desconhecidos para tarefas separadas).
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Educação para todos significa Educação através de todos

Nos seus trabalhos, especialmente em “A desescolarização da sociedade”, Ivan Illich esboçou uma das muitas possibilidades de como a aprendizagem poderá ter lugar numa sociedade “pós-crescimento”. (…)
A aprendizagem, segundo Illich, processa-se melhor quando resulta de interesse genuíno e motivação intrínseca e não por estar inscrita nalgum currículo. “A grande parte da aprendizagem não é o resultado de ensinamento. É, pelo contrário, resultado da participação não restritiva num ambiente pleno de sentido. As pessoas aprendem melhor quando estão ativamente envolvidas.” (…)
Illich distingue duas formas de aprendizagem: primeiro, a aquisição de competências (skills) como artesanato, um instrumento, uma língua estrangeira- competências cujo grau de domínio é facilmente visível; segundo, a formação, “liberal education” , cujo objetivo consiste no crescimento interior pessoal e no desenvolvimento da criatividade, que não é mensurável nem quantificável e que depende da inspiração e interação humana mútua.

A aprendizagem como processo para toda a vida

Enquanto que as competências (skills) são relativamente fáceis e rápidas de aprender através da imitação de alguém que as domina, a formação resulta essencialmente duma troca com semelhantes que se preocupam com o mesmo assunto.
Illich manifesta- se contra a limitação artificial das possibilidades de aprendizagem, dado que atualmente a educação é delegada a “especialistas pedagogos” , apenas no interior duma instituição escolar. Illich defende que a “… educação para todos significa educação através de todos” e que essa não pode estar limitada à infância, mas constitui um processo contínuo durante toda a vida.
(…)
Segundo Illich, a passagem para uma sociedade “pós crescimento” passa impreterivelmente pela desescolarização. ” Muitos que se vêm como ativistas ou revolucionários, são na verdade vítimas da escola. Vêm até a libertação como produto de um procedimento institucional (…).
“Cada um de nós é responsável pela sua própria desescolarização (…)”.
Da mesma forma que as pessoas apenas se puderam libertar da coroa após, pelo menos alguns, se terem libertado da igreja, atualmente só nos conseguiremos libertar da economia de consumo, se nos libertarmos da escolariedade (…).

Tradução livre, adaptação e comentários de Agnes Sedlmayr, a partir do original de Rosa Goldmann, do site SEIN, de Junho 2014:

http://www.sein.de/…/entschulung-als-weg-zu-persoenlicher-b…

http://www.degrowth.de