Estaremos livres para crescer ?

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Vínculo, aprendizagem e desescolarização

Penso que as crianças são dos grupos sociais mais desrespeitados e luto por uma nova atitude em relação às crianças: uma atitude livre de manipulação, controlo e dominância, uma atitude que se baseia na satisfação das necessidades emocionais da criança, para que esta possa crescer sem stress emocional e sem distúrbios e assim desenvolver o seu máximo potencial.

Tenho sido convidada para diversos encontros e conferencias sobre a educação e tenho a forte impressão que, na grande parte das vezes, só se fala e discute sobre a ponta do icebergue; os educadores trocam impressões sobre a dificuldade de educar, sobre os alunos que estão tão desmotivados, que tem mau comportamento e não se interessam por nada, etc. Depois, os educadores juntam-se para procurar soluções para resolver estas situações: discutem como se pode melhorar a escola, como se pode motivar os alunos, e como se consegue dar a matéria curricular de forma divertida e interessante e fazer com que os alunos a retenham e tenham boas notas…

Para mim, isto é apenas uma maquilhagem, no máximo uma cirurgia plástica que, no entanto, não resolve nada a fundo, nem sequer aborda as questões realmente significantes.

Por isso, o que eu quero é ir bem ao fundo da questão:

PORQUE É QUE HÁ TANTAS CRIANÇAS INFELIZES E DESMOTIVADAS, EM STRESS E CARÊNCIA EMOCIONAL, QUE SE TORNAM OS ADULTOS INSATISFEITOS, STRESSADOS E CARENTES?

Não podemos revolucionar a educação se olharmos para a criança como aluno, estagnada no tempo, sem passado nem futuro, que existe para nós apenas enquanto está na escola e assimila ou não assimila determinadas matérias curriculares.

Temos que ver a criança como um ser humano completo e conhecer quais as suas necessidades para que se desenvolva em harmonia.

Como nunca antes na história, estamos numa crise emocional de larga escala. Anualmente aumentam os números de pessoas com doenças emocionais como depressões, burn-out, tentativas de suicídio, psicopatias, narcisimo etc. e aumentam problemas como as disfunções sexuais, dificuldades em comunicar, fobias, ausência de autoestima (muitas vezes disfarçada sob megalomania, consumismo, aquisição de elevadas posições sociais), ansiedade geral, desconfiança no mundo, medo constante do futuro.

Nos últimos 50 anos, embora tenhamos atingido um patamar de bem estar económico nunca visto, a maioria das pessoas sente-se insatisfeita, consigo, com a vida, com as perspetivas futuras.

É essencial para o nosso bem-estar e a sustentabilidade emocional nossa e da sociedade no geral, que observemos de perto as causas dos distúrbios e procuremos ativamente soluções.
Após muitos anos de estudos e pesquisas, estou agora convicta de que as raízes para o estado de profundo distúrbio emocional que experimentamos como sociedade, se encontram no modo como tratamos as crianças, e estou, ainda, convicta que se pode reverter este processo decadente através de um novo paradigma educacional.

A origem da grande maioria das doenças emocionais encontra-se na infância, geralmente na primeira infância. Podemos até já no 1º ano de vida, prever se uma criança terá um desenvolvimento estável e equilibrado a partir do tipo vínculo que ela tem com a sua figura de referência afetiva (primary caregiver)!

Para que a criança se desenvolva sem distúrbios da sua auto estima, em, segurança e confiança, de modo a que não necessite de gastar energias em manter um frágil equilíbrio emocional, mas que possa canalizar todas as suas energias para o desenvolvimento do seu potencial, é necessário que ela se encontra numa ligação afetiva estável com pelo menos uma figura de relacionamento primário (primary caregiver).

Segundo os estudos na área do attachment (vínculo ou apego), a ligação afetiva é crucial para todo o processo de desenvolvimento e para a saúde mental e emocional futura do ser humano.

Deste modo, como pais e educadores temos de nos preocupar em 1o lugar com o vínculo que estabelecemos com as criança. Existem diferentes variações, desde o vínculo seguro que consiste na relação de total confiança e intimidade psicológica da criança com o seu referencial afetivo; ao vínculo inseguro (ansioso resistente), vínculo inseguro ansioso- evitador, vínculo desorganizado, etc.

A premissa para o estabelecimento dum vinculo seguro na 1a infância é a presença constante e previsível de um primary caregiver, tal como a sua resposta sensível e empática ás necessidades da criança. Uma criança com vínculo seguro aprende que o mundo é um lugar bom, onde é respeitada, as suas necessidades são satisfeitas e as interações humanas se baseiam em amor, segurança, confiança e valorização mútua. Essas são as bases para um desenvolvimento emocional e mental saudável e próspero.

Porem, a maioria dos pais não tem noção da importância do vínculo e das consequências a longo prazo das suas ações. Vamos então observar como decorre a infância da grande maioria das crianças europeias, e as consequências devastadoras que o modo de educação corrente tem em nós todos.

Atualmente, desviámos-nos radicalmente da satisfação das necessidades básicas do bebé, que estão inscritas no nosso padrão biológico. Há pelo menos dez mil anos que o ser humano apenas conseguiu evoluir porque estavam salvaguardadas as premissas essenciais: contacto constante com uma figura primária de relacionamento, normalmente a mãe, amamentação até ao desmame natural e respeito pelas necessidades e pelo ritmo de cada criança.

Há cerca de 200 anos, com a industrialização e consequente necessidade de ambos os pais trabalharem a tempo inteiro nas fábricas, institui-se um modo de educação que descuida as necessidades emocionais do bebé.

A maioria dos bebés hoje em dia não são nutridos como necessitam. NÃO se estabelece assim um vínculo seguro, o que a longo prazo tem consequências negativas no desenvolvimento.

São lhes dados substitutos materiais desde a nascença que, no entanto, não conseguem substituir verdadeiramente a necessidade inata de relacionamento íntimo com seres humanos, referenciais afetivos.

Em vez de serem amamentados, o que satisfaz não só as necessidades físicas mas também as emocionais, de contacto pele a pele com a mãe, confiança, segurança, a grande maioria dos bebés não são amamentados, mas alimentados a biberão um recipiente de plástico com um leite artificialmente produzido em fábricas. Os bebés são transportados em carrinhos, longe do contacto físico com a mãe, deitados em berços e parques e colocados em camas de grades e deixados sozinhos durante a noite; As necessidades inatas de intenso e constante contacto físico não são satisfeitas, e o bebé aprende desde cedo que não pode confiar, que ninguém lhe dá o que precisa e que objetos materiais (biberão, chupeta, carrinho, bonecos) são alternativas validas para e interação humana.

Após um desmame forçado com 6 meses ou pouco mais ( a idade para uma criança deixar de precisar ser amamentada é geralmente entre os 2 e os 3 anos!), o bebé é entregue num berçário, para a mãe voltar a trabalhar. A institucionalização tão precoce existe em Portugal apenas há cerca de 50 anos, mas tem já consequências drásticas no saudável desenvolvimento duma criança.

Assim, desde cedo a sociedade, através dos pais, programa as crianças para não criarem ligações emocionais intensas;

As crianças são depositadas o mais cedo possível em berçários e creches em que o contacto físico e a interação amorosa com adultos são mínimos a inexistente; com seis anos, são fechadas para os próximos 12 anos em instituições escolares onde há poucas relações de intimidade afetiva e psicológica, ; nas escolas os relacionamentos geralmente consistem em interações superficiais com objetivos de manipulação: há quem manda e quem tem de obedecer, quem fala e quem tem de ouvir, quem sabe e quem não sabe, quem é bom (aluno) e quem é mau (aluno)…

As crianças são sobrecarregadas com tarefas impostas e arbitrárias durante cinco, seis ou mais horas por dia, num sem fim de atividades pré-definidas que lhes deixam pouco tempo para brincar e pouca ou nenhuma privacidade.

O contexto em que a grande maioria das crianças cresce, é muito pobre em estímulos tácteis (colo, carinhos, abraços…) e impulsos criativos, mas rico em coerção, críticas, avaliações, chantagens e repressões; os “educadores” partem do princípio que as crianças têm de ser manipuladas e modificadas de modo a cumprir expectativas arbitrárias do mundo adulto.

As crianças habituam-se desde cedo que têm de corresponder às vontades de pais e educadores, reprimir suas necessidades e anular a sua própria vontade e opinião.
Em inúmeras famílias, a interação entre pais e filhos resume-se a ordens, críticas e técnicas manipulativas. Este modelo de educação, que consiste na ideia de que a criança é um ser inacabado, imperfeito, que tem de ser submetido a técnicas pedagógicas de treino e manipulação para vir a ser “alguém válido”, começa em casa, passa por berçários e infantários e culmina na escola.

Devido ao facto de as pessoas hoje em dia passarem 12 ou mais anos fechados em instituições de ensino e, a seguir, mais alguns anos no ensino superior, tudo com o objetivo máximo de serem formatadas para ocupar em adultos uma função o sistema económico, dou particular atenção à denúncia dos malefícios desta institucionalização.

Considero que temos de desescolarizar a nossa sociedade, isto é:

  • rejeitar a ideia de que o saber académico define a pessoa;
  • rejeitar a ideia de que é bom e útil colocar um monte de crianças desde cedo em situações artificiais de grupo, longe dos seus referenciais afetivos;
  • rejeitar a ideia de que as crianças tem de adquirir determinados saberes em determinadas idades;
  • rejeitar a ideia que se deve aprender no interior de uma instituição, qualquer que seja;
  • rejeitar a ideia de que há pessoas que tem o direito de manipular e formatar outras a seu bel prazer, rejeitar assim a atitude pedagógica!

Eu, tal como muitos outros que se debatem com estas ideias, consideramos que “qualquer ato pedagógico é um ato de manipulação e controlo do comportamento e, por isso, eticamente inaceitável”.

Significa que qualquer pessoa que se julga no direito de exercer pressão consciente ou inconscientemente, de forma subtil, disfarçada ou abertamente, para modificar outra pessoa, está a infringir o direito à individualidade e liberdade.

O “pedagogo” é, assim, alguém que se julga no direito moral de modificar outrem que considera seu inferior, de acordo com valores seus, independentemente se esses “valores” realmente serão do interesse de quem está a ser alvo da sua atuação.

Em última instância, o ato pedagógico é um ataque à integridade e à liberdade do ser humano.

Uma criança nasce com capacidades infinitas. Nasce com a sua auto-estima intacta e acredita que o mundo a vai tratar bem. Confia que os seus pais satisfaçam de forma coerente as suas necessidades emocionais e físicas.

Tudo isto é comprometido pela educação que acabei de descrever. A criança é forçada e manipulada desde a nascença a adaptar-se ao conforto dos adultos. A sua auto-estima é destruída passo a passo, por ser constantemente avisada, criticada, avaliada. A sua curiosidade natural é reprimida e, por sua vez, é forçada a manifestar interesse em matérias académicas escolhidas por adultos. É afastada dos seus referenciais afetivos desde cedo e treinada para adquirir competências académicas que eventualmente lhe irão conceder uma posição materialmente confortável na sociedade adulta.

A infância é vista apenas como uma fase de treino para uma boa posição social em adulto. Rejeito esta ideia. Eu e muitos outros que estudam e se preocupam sobre estes assuntos, consideramos que a criança necessita de ser respeitada e apoiada incondicionalmente, para se salvaguardar o seu desenvolvimento natural e saudável.
A criança necessita de viver num ambiente de amor e aceitação, em conexão com adultos que funcionam como modelos e não polícias ou professores. Temos de respeitar os ritmos individuais de evolução e desenvolvimento de cada ser humano.

Julgo que o objetivo máximo da nossa vida é sermos felizes; isto é, sentimo-nos bem connosco mesmos, sentimo-nos livres de optar por modos de vida que consideramos válidos e íntegros, podermos desenvolver os nossos verdadeiros interesses ao nosso ritmo, sermos aceites incondicionalmente e estarmos em conexão emocional com pessoas que amamos.

No entanto, não parece ser este o objetivo dos educadores. A criança e o jovem são, pelo contrário, forçados constantemente a abdicar de interesses, ideias e opiniões, até das suas próprias necessidades; são forçados a passar toda a infância e juventude em salas fechadas com pessoas, cujo único aspeto em comum é a mesma idade. São permanentemente vigiados e avaliados conforme a sua permeabilidade à inculcação de matérias académicas. A sua felicidade atual é sacrificada em prol de um eventual sucesso material futuro.

Não faz sentido.

Por todas estas razões, concluo:

A vida de crianças e jovens, como é atualmente, não leva a um desenvolvimento livre e equilibrado, não contribui para a sua felicidade, nem no momento atual, nem no futuro. Uma vida de carências emocionais e cheia de condicionamentos e imposições não é uma vida feliz e integra.
Dado que eu e muitas outras famílias como a minha nos opomos à perpetuação destes valores de opressão da infância, optamos por um modo de vida diferente. Julgamos que não é uma vida subjugada a valores materiais que nos faz felizes. Não é um emprego de 8 horas num escritório com mais duas horas em filas de trânsito que nos faz felizes. Não é um diploma que nos concede competência. Não é um título que nos levanta a auto-estima.

Procuramos alternativas para nos libertarmos das convenções sociais que tanto sufocam a criatividade e a individualidade. Por isso, procuramos opções libertadoras, questionamos, pesquisamos e informamos-nos a fundo.

Foi no encaminhamento dum processo de profunda modificação e consciencialização que encontrei o unschooling. É uma forma de vida, como muitas outras válidas, que possibilita uma liberdade fora do comum e uma independência das convenções sociais limitadoras, focando-se na ideia de respeito absoluto pela integridade do ser humano.

O que é o unschooling?

Embora a palavra esteja intimamente ligada à ideia de escola/não escolarização, na verdade unschooling é um conceito mais complexo. Refere-se a uma atitude antipedagógica em todas as variantes da vida.

Muitas vezes e sem nos apercebermos, extrapolamos uma atitude de manipulação e modificação do outro, típica da atitude pedagógica que nos moldou, para todas as nossas relações interpessoais. Avaliamos, criticamos, exercemos controlo, domínio e coerção sobre todas as pessoas com quem convivemos.

No unschooling, rejeitamos esses modelos de comportamento. Advogamos uma atitude de respeito pela individualidade e de apoio para cada membro da família ou do grupo poder desenvolver o seu máximo potencial. Damos especial relevância às necessidades emocionais de cada membro da família, tentando como máxima prioridade nutrir e salvaguardar o direito à liberdade de cada um.

Como estamos comprometidos em viver uma vida feliz e preenchida, não escolarizamos os nossos filhos. Não acreditamos que a formação escolar seja a chave para a felicidade, mas que uma vida feliz se vive seguindo as paixões, aprofundando os interesses, conectando com quem se ama, aprendendo o que nos faz vibrar, desenvolvendo competências ao próprio ritmo e nas áreas que mais sentido fazem para nós.

Segundo estudos importantes na área da neurobiologia, para que aconteça uma verdadeira aprendizagem, que fica e não é apenas uma banal memorização que desaparece depois de uns dias, a pessoa tem que estar envolvida emocionalmente com o assunto; isto é, tem que estar profundamente interessada e sentir se em equilíbrio para poder gastar energia a aprender.

A verdadeira aprendizagem é, assim, geralmente autodidata: a pessoa descobre um interesse que a faz vibrar, que desperta uma curiosidade imensa, e não descansa até descobrir tudo sobre aquele interesse. Quando a curiosidade está saciada, a pessoa aprendeu imenso sobre esse determinado assunto,sente se feliz e preenchida e nunca mais se esquece daquilo! Numa escola, o melhor que seja, isto não é possível. Não é possível que 15 ou 20 jovens se lembrem de 15 ou 20 temas diversos e os explorem á sua própria maneira e ao seu próprio ritmo!

Se a verdadeira aprendizagem acontece de forma espontânea, autodidata e natural, desde que haja um ambiente emocional harmonioso, qual o sentido de reformular currículos, plantar mais árvores nas escolas ou inventar mais projetos nas aulas? Estou convicta que isso são apenas estratégias de maquilhagem que não resolvem os problemas de fundo de um sistema tão obsoleto como o é a escola.

Estou convicta que o caminho é o de acabar com a escola como a conhecemos, e direcionar os esforços para apoiar e promover a união familiar e das comunidades, para lutar pela liberdade da criança, informar as famílias sobre as necessidades e apoiá-las a aprenderem a nutrir emocionalmente as crianças com quem partilham as suas vidas.