O que é o Attachment Parenting ?

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Attachment Parenting é um conceito que define um estilo de parentalidade que proporciona a criação e a manutenção de um vínculo seguro.

Segundo a organização API (Attachment Parenting Internacional) este estilo de parentalidade promove:

“práticas de criação que criam vínculos emocionais fortes e saudáveis entre pais e filhos. A API acredita que a prática da Criação com Apego (do inglês Attachment Parenting – AP) atende às necessidades da criança de confiança, empatia e afeição, provendo a base para uma vida repleta de relacionamentos saudáveis.

Enraizado na teoria do apego, a Criação com Apego foi estudada amplamente, durante mais de 60 anos, por investigadores das áreas da psicologia e desenvolvimento infantil, e, mais recentemente, por investigadores da área da neuro-biologia. Estes estudos revelam que os bebés nascem com fortes necessidades de ser alimentados e de permanecer fisicamente próximos ao cuidador principal, normalmente a mãe, durante os primeiros anos de vida. O desenvolvimento emocional, físico e neurológico da criança é amplificado quando as necessidades básicas são atendidas consistentemente e apropriadamente. Estas necessidades podem ser resumidas a proximidade, proteção e previsibilidade.

Chorar, agarrar-se e a sucção do bebé são as primeiras técnicas para manter a mãe por perto. Enquanto a criança cresce e se sente mais segura no seu relacionamento com a mãe, ela está mais apta a explorar o mundo em seu redor e a desenvolver laços fortes e saudáveis com outras pessoas importantes em sua vida.(…)”

Dá-se então máxima prioridade à criação e manutenção de um vínculo seguro, que consiste num relacionamento de previsibilidade, confiança, continuidade e empatia entre a criança e sua figura de referência afetiva.

O vínculo seguro permite à criança sentir-se física e emocionalmente segura e, assim, aberta à exploração do mundo, sabendo que a qualquer momento poderá regressar ao porto seguro que é a sua figura de referência afetiva, que a apoia e ajuda a regular as suas emoções.

O vínculo seguro a pelo menos uma figura de referência afetiva é crucial para o ótimo desenvolvimento físico, psicológico e intelectual da criança e é relevante para a capacidade futura de lidar com frustrações, desafios e problemas. Uma criança com vínculo seguro será mais resiliente, terá melhor auto-estima e capacidade de lidar com situações problemáticas; terá capacidade de identificar e lidar com emoções (Easterbrooks et. al 2000), uma consciência moral mais desenvolvida (Kochanska and Murray 2000). e maior empatia e comportamento sociável (Davidov and Grusec 1996).

O vínculo seguro promove até a capacidade intelectual e o desenvolvimento do cérebro, sendo que contribui para a formação ideal do hipocampo e da amígdala cerebelosa, que são estruturas cerebrais responsáveis pela aprendizagem espacial, a memória , a reatividade ao stress e o processamento de emoções (Luby et al 2013).

Foi também o vínculo seguro que possibilitou a nossa sobrevivência como espécie, ao longo de milhares de anos, pois garantiu que os pais (ou outra figura de referência afetiva) nunca abandonassem a criança e reagissem de forma sensível às suas necessidades, maximizando assim a sua possibilidade de sobreviver num mundo, que nem sempre foi tão higiénico e seguro como o conhecemos hoje em dia, na Europa!

É importante realçar que o tipo de vínculo que a criança estabelece nos primeiros anos de vida com sua figura de referência afetiva (geralmente a mãe) lhe servirá como modelo para todos os relacionamentos que terá no futuro. Assim, consegue-se prever, atendendo ao tipo de vínculo que uma criança tem aos dois ou três anos, que relacionamentos terá na sua vida adulta com parceiros, amigos, os próprios filhos, etc.

Existem diferentes tipos de vínculo, cujas características e denominações foram marcadas pelo trabalho de John Bowlby e Mary Ainsworth, com base numa experiência chamada “Strange Situation” (anos 70):

Vinculação Segura

  • A criança utiliza a mãe como base de segurança a partir da qual explora o meio;
  • A criança chora com pouca frequência no entanto, nos momentos de separação mostra-se perturbada e não é reconfortada por outras pessoas;
  • Nos reencontros com a mãe, a criança saúda-a activamente, sinaliza-a e procura o contacto com ela.
  • Existe equilíbrio entre os comportamentos de vinculação e de exploração.

Vinculação Insegura Ambivalente

  • A criança permanece junto da mãe, aparenta alguma ansiedade e explora pouco o meio;
  • Nos momentos de separação a criança mostra-se muito perturbada;
  • Nos reencontros com a mãe o comportamento da criança pode alternar, entre tentativas de contacto e contacto com sinais de rejeição (empurrar, pontapés…);
  • Após o reencontro com a mãe, a criança fica vigilante;
  • Os comportamentos de vinculação predominam face aos comportamentos exploratórios.

Vinculação Insegura Evitante

  • A criança permanece mais ou menos indiferente quanto à proximidade da mãe e entrega-se à exploração do meio;
  • Na ausência da mãe a criança pode chorar ou não e, se ficar perturbada é provável que outras pessoas a consigam reconfortar;
  • Nos reencontros com a mãe, a criança desvia o olhar e evita o contacto com ela;
  • Os comportamentos exploratórios prevalecem face aos comportamentos de vinculação.

Vinculação Desorganizada

  • O comportamento da criança parece não ter um objectivo claro ou uma explicação;
  • A criança executa movimentos incompletos, estereotipados e paragens;
  • A criança manifesta medo da mãe e alguma confusão ou desorientação.

fonte: Paula Caleça (Psicóloga Educacional)

No Attachment Parenting partimos do princípio de que uma necessidade satisfeita desaparece, enquanto que uma necessidade não satisfeita se mantêm, muitas vezes de forma subliminar, levando a carências a longo prazo que irão condicionar o desenvolvimento saudável.

Há um conjunto de necessidades básicas do ser humano enquanto bebé/ criança, que vêm da nossa história evolutiva e se mantiveram até hoje. Essas necessidades, satisfeitas de forma segura, empática e consistente, levam à criação e manutenção de um vínculo seguro.

Assim, considera-se que o bebé tem necessidades inatas de contacto físico, estímulo táctil, amamentação em livre demanda, dormir junto dos pais e máxima continuidade e constância no relacionamento com a figura primária de referência afetiva. Por isso, o AP promove oito princípios que apoiam a satisfação das necessidades do bebe:

  • Preparando para a Gestação, Nascimento e Criação
  • Alimentando com Amor e Respeito
  • Respondendo com Sensibilidade
  • Usando o Contato Afetivo
  • Garantindo um Sono Seguro, Física e Emocionalmente
  • Provendo Cuidado Consistente e Amoroso
  • Praticando a Disciplina Positiva
  • Mantendo o Equilíbrio entre a Vida Pessoal e Familiar

fonte: http://www.attachmentparenting.org/portuguese

As ferramentas mais utilizadas são o co-sleeping, a amamentação em livre demanda e até ao desmame natural, o babywearing, a comunicação não-violenta e a manutenção da criança junto à mãe ou à sua figura de referência afetiva, pelo menos nos primeiros anos de vida (evitando berçários, creches, etc.)

Porém, não há um conjunto rígido de regras que se tenham de seguir, desde que se tenha sempre como prioridade a reacção sensível às necessidades do bebé/criança, por parte da(s) figura (s) de referência afetiva, presentes e previsíveis.

Na nossa sociedade ocidental, que valoriza a autonomia do bebé (muito antes de este estar, realmente, maturo para a verdadeira independência) e a força de trabalho da mãe na economia, a criação e manutenção do vínculo seguro está ameaçada. Devido à sobrevalorização do individualismo e do egocentrismo, estabeleceram-se ideias e lugares-comuns que não correspondem a factos ou evidências, mas que são todo-poderosas e contribuem silenciosamente para minar o relacionamento entre pais e filhos ou pior, para nunca se estabelecer um vínculo seguro.

Assim, considera-se bom quando um bebé ou uma criança pequena fica com avós, tios, berçários, infantários, amigos, etc. sem mostrar sinais de stress, sem chorar ou se agarrar à mãe. Considera-se bom e desejável que um bebé durma sozinho no seu próprio quarto desde poucos meses, que vá ao colo de qualquer pessoa, seja desmamado o mais cedo possível passando a aceitar todo o tipo de papinhas e leites artificiais, que use chupeta, que esteja agarrado a um peluche ou fralda de pano ou outro objeto de substituição materna, etc.

Isto é a total inversão das necessidades inatas da criança, inscritas no seu padrão biológico e tão agudas hoje como há dez mil ou cinquenta mil anos atrás. Não admira que o nosso mundo esteja cheio de pessoas carentes, emocionalmente doentes e incapazes de estabelecer e manter relacionamentos de intimidade psicológica. Para que possamos garantir que as nossas crianças sejam livres para crescer, de forma ideal- física, psicológica- e emocionalmente, julgo extremamente importante conhecer a importância do vínculo seguro e implementar mudanças que possibilitem a sua formação e manutenção eficaz e sustentável.

 

 

bibliografia de referência:

http://www.parentingscience.com/
http://www.simplypsychology.org
http://www.attachmentparenting.org/

Bowlby J (1976) [1965]. : Fry M (abridged & ed.). Child Care and the Growth of Love (Report, World Health Organisation, 1953 (above)). Pelican books 2nd edn. ed. (London: Penguin Books).

Bowlby J (1973). Separation: Anxiety & Anger. Attachment and Loss; (International psycho-analytical library no.95) (London: Hogarth Press).

Main, Mary; Hesse, Erik (1993). “Parents’ Unresolved Traumatic Experiences Are Related to Infant Disorganized Attachment Status: Is Frightened and/or Frightening Parental Behavior the Linking Mechanism?”. In: Greenberg, Mark T.; Cicchetti, Dante; Cummings, E. Mark. Attachment in the Preschool Years: Theory, Research, and Intervention (Chicago: University of Chicago Press).