Crianças livres protegidas do mundo real ?

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Unschooling será uma forma de proteger as crianças da vida real ?

Muitas pessoas acham que as crianças que não frequentam escolas, que vivem a sua vida em liberdade com a sua família e comunidade, estarão a ser protegidas do mundo real. Pressupõem que o “mundo real” é um edifício fechado, para o qual se tem de ir obrigatoriamente, e onde se passa muitos anos de vida à mercê de imposições, regras arbitrárias e decisões externas, cumprindo tarefas impingidas, lado a lado com outras crianças com as quais apenas se tem em comum a “data de fabrico”.

Na minha perspectiva, isso não é o mundo real. Isso é a escola, uma redoma artificialmente criada com objectivos de produtividade, com desafios previsíveis e soluções uniformes.

O mundo real é outra coisa. É a própria vida, desafios imprevistos, aventuras inesperadas, espaços variadíssimos, intempéries emocionais e meteorológicas, pessoas de diferentes idades e mundividências, problemas arrepiantes para resolver sem soluções pré-estabelecidas… Isso sim, é o mundo real, no qual as crianças livres estão imersas e com o qual lidam diariamente à sua única maneira.

Unschooling não significa que as crianças passam o dia fechadas em casa, sob supervisão severa da mamã, aborrecidas, sem vontade de fazer nada…Pelo contrário, unschoolers costumam ser muito motivados e curiosos, pois seguem a sua motivação intrínseca, e ” o mundo é a sala de aula”: passeiam, exploram a natureza, constroem, descobrem, visitam, convivem, lêem, escrevem, desenham, brincam, enfim, vivem as suas paixões e aprendem tudo o que precisam, envolvidos na vida real.

(Em breve publicarei aqui uma descrição mais aprofundada sobre o conceito de unschooling):

” Penso que as crianças nas escolas é que são afastadas do mundo real. Estão limitadas a uma situação altamente artificial num espaço dirigido e preparado para a inculcação de informação académica. Estão privadas da imensa variedade de pessoas, situações, experiências e acontecimentos do mundo real. Para além disso, estão emocionalmente mais carentes e vulneráveis e por isso facilmente desequilibrados perante situações adversas.
Crianças livres não vivem uma vida cor-de-rosa. Enfrentam a vida real, apercebem-se do mundo porque estão imersas nele. Passam por dificuldades tal como qualquer ser humano, mas têm uma bagagem de apoio, amor e auto-estima, para além de terem a possibilidade de criar soluções individuais para resistir ao stress e encontrar formas únicas de resolver problemas.
Crianças livres não passam pelas dificuldades de chumbar nos testes, de ter de decorar assuntos que não lhes interessam minimamente, de se sujeitar a humilhação e uniformização, de ter de seguir instruções sem questionar, de ter de obedecer e reprimir a sua opinião. Porém, é altamente duvidoso se estas situações, características da educação institucional, serão benéficas para o desenvolvimento íntegro e feliz do ser humano. (…)
As dificuldades que as crianças livres enfrentam não são criadas artificialmente, mas fazem parte da vida e das diferentes fases de desenvolvimento em que cada um se encontra. Ninguém avalia como e através de que estratégias essas dificuldades são ou não ultrapassadas, ninguém corrige a maneira de encarar estas dificuldades ou apressa a resolução de problemas. Apenas apoiamos quando somos solicitados. De resto, estamos presentes, respeitamos, amamos e observamos.(…)”

Excerto do e-book “Livre para Crescer” :