O que é o unschooling ?

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Existem conceitos que se definem por aquilo que NÃO são. Conceitos que, para serem totalmente compreendidos, têm que se destacar e opor a outros conceitos conhecidos e dominantes. O unschooling é assim. Para se compreender a amplitude e complexidade deste modelo, é necessário, em primeiro lugar, sacudir tudo o que o unschooling não é, livrar-se de ideias fixas e preconceitos, estar aberto à nova informação.

Assim, unschooling NÃO é apenas uma definição para crianças que não frequentam uma instituição de ensino. Não é uma definição para crianças deixadas ao sabor do vento, crianças que não aprendem, que não fazem nada ou pais que não têm força ou vontade para impor os famosos “limites”. Unschooling também não é “laissez faire” ou “bandalheira total”, nem é sobreprotecção das crianças por parte de mães-galinhas, helicopter-parents ou pais controladores. Nada disso é o unschooling, embora seja muitas vezes confundido erroneamente com estas ideias desinformadas.

Unschooling não é, ainda, um método, um conjunto de técnicas pedagógicas ou um modo de educação alternativa, mas uma alternativa a educação.

Unschooling não é um modo de educação alternativa, mas uma alternativa à educação.

Há um número crescente de pessoas que se apercebem que toda a nossa vida, as nossas ideias, os relacionamentos, as perspetivas, toda a sociedade e os modelos políticos e económicos estão profundamente marcados pela escola e o mindset que o modo de educação institucional transmite.

Atendendo ao facto que a escolaridade obrigatória existe há pouco tempo (cerca de 150 anos, comparado com os milhões de anos de evolução do género humano), urge repensar se os modelos de pensamento incutidos serão adequados para o desenvolvimento e a vida equilibrada do ser humano.

Há todo um conjunto de crenças originárias da- e perpetuadas pela- ideologia pedagógica, que marcam decididamente o modo de vida contemporâneo e que, na nossa perspetiva, são nefastas à felicidade e evolução humana. Essas crenças todo-poderosas definem a vida da grande parte das pessoas, atualmente. Baseiam-se numa mundividência marcada por uma visão de desconfiança nas capacidades humanas; numa perspetiva hierárquica das relações humanas, em que a criança está no fundo da escala; numa visão da criança como ser inferior ao adulto, que tem de ser modificado ao longo da sua infância para se adaptar à sociedade adulta; na ideia, de que é legítimo manipular outro ser humano para o formar e modelar; na convicção, embora geralmente subconsciente, de que o adulto tem o direito de atuar sobre a criança da forma como achar adequado, independentemente se a criança quer ou não, ou se tem outra opinião ou outras necessidades.

No unschooling, consideramos estas ideias e crenças profundamente anti-humanas e anti-éticas. Condenamos e rejeitamos qualquer atitude pedagógica, pois defendemos a ideia de que o ser humano é soberano, dono de si, desde o primeiro dia de vida. Que uma criança é digna de total respeito desde que nasce, e que a função dos adultos não é a de manipular e formar, mas de apoiar e nutrir.

Unschooling é assim um modo de vida, um modo de relacionamento com o Outro, a natureza, o mundo no geral. O foco não está na mudança, manipulação e coerção, mas na confiança nos processos internos e na satisfação das necessidades emocionais, assim como no respeito e no apoio do ritmo, dos sentimentos e interesses de cada membro da família, do grupo, da sociedade.

Unschooling não define o tipo de aprendizagem de uma determinada criança, mas define o modo de estar de toda a família ou grupo. Porque, para se poder viver uma vida sem escola, os adultos precisam de se desescolarizar, isto é, libertar-se de pensamentos, comportamentos e ideias absorvidas e interiorizadas ao longo de tantos anos de escolarização. Os adultos têm de abrir mão de muitas ideias sobre a vida, a infância, a aprendizagem, e aprender a confiar e a valorizar a criança/o ser humano em cada fase única do seu desenvolvimento. Isto leva a processos de transformação interior muitas vezes complicados e dolorosos, porque nos temos de despedir de aspetos da nossa vida que até então considerávamos certos e imutáveis e confrontar-nos com as nossas falhas e limitações adquiridas pela educação à qual todos fomos submetidos.

A sociedade escolarizada perpetua violências e abusos emocionais e físicos, muitas vezes subtis, disfarçados e inconscientes, tanto nas crianças como nos adultos. Perpetua a ideia de que só aprendemos e somos produtivos de forma válida se somos submetidos à pressão e à inculcação de matéria académica arbitrária; se somos avaliados e controlados a cada passo; que a aprendizagem é um ato linear, mensurável por autoridades, comparável e avaliável; que cada pessoa é válida de acordo com a sua performance académica e profissional; que a vida é dura e difícil e devemos demonstrar isso às crianças o mais cedo possível; que fazer o que gostámos não é tão sério e digno, como fazer um esforço por algo que não gostamos.

Devido a tantos anos num ambiente de educação (familiar e escolar), opressor e abusivo da liberdade e integridade do ser humano- quase todos os adultos aprenderam a lição de tal forma, que vivem toda a sua vida- não só a profissional mas também a pessoal- sob o domínio da educação que receberam; nos relacionamentos, não apenas com crianças mas nos adultos entre si, existem os jogos de poder, de domínio e subjugação, de avaliação e competição, de controlo de comportamento, de castigos e recompensas, etc, que são características da educação autoritária e marcas da ideologia pedagógica.

Para podermos apoiar o ser humano no seu desenvolvimento integro, individual e emocionalmente sustentável, é necessário ultrapassar a prisão das condicionantes pedagógicas. É isto que o unschooling propõe: a libertação total das limitações pedagógicas em todas as vertentes da vida e a abertura para uma vivência autêntica, livre, não controlada e única.

Em termos práticos, no modo de vida unschooling, as crianças são respeitadas e apoiadas no seu processo de desenvolvimento individual. Não há ninguém que se acha no direito ou no poder de incutir qualquer tipo de saber ou matéria académica ou tarefa; os adultos são facilitadores de experiências e dão todo o apoio necessário, sem nunca invadirem a privacidade ou insistirem sem serem solicitados.

Não existem currículos, livros escolares “para dar matéria”, avaliações, controlo, exames ou outro tipo de pressão. As crianças vivem de acordo com o seu próprio ritmo e seguem os seus interesses em conjunto com as pessoas que amam e nas quais confiam. Os pais ou outras figuras de referência vivem vidas preenchidas e inspiram e encorajam as crianças a encontrar os seus talentos e desenvolver o seu máximo potencial. Valorizam-se conversas e debates intensos, tolerância, cooperação e empatia.

As crianças não estão fechadas todo o dia a decorar livros ou a ver televisão; pelo contrário, todo o mundo é a sua sala de aula: aprendem o que as interessa, por motivação intrínseca, tendo tempo para aprofundar qualquer assunto que as entusiasme; aprendem através da vida real e dos desafios do mundo real, ao contrário das crianças nas escolas, que estão fechadas todos os dias da sua infância numa redoma artificialmente criada para a inculcação de matéria académica arbitrária.

Unschoolers têm contactos e amizades com pessoas das mais variadas idades e mundividências. Ao contrário das crianças institucionalizadas, que estão limitadas a um grupo de iguais criado artificialmente por adultos, as crianças livres escolhem os seus amigos de acordo com as suas preferências e interesses, e não de acordo com a mesma turma, idade, geografia e enquadramento sócio-económico.

Crianças unschoolers têm a oportunidade de brincar livremente, sem horários, restrições, imposições ou regras pré-estabelecidas por adultos. A brincadeira livre, que é um elemento crucial para o desenvolvimento emocional, cognitivo e físico do ser humano, está seriamente ameaçada nas crianças institucionalizadas, pois são forçadas desde pequenas a cumprir tarefas, seguir horários e exercer atividades guiadas e preparadas por adultos. Unschoolers têm tempo: para brincar, para explorar com todos os sentidos e para se descobrir a si próprios.

O unschooling não é uma moda ou uma experiência curiosa; na verdade, até há cerca de duzentos anos atrás, unschooling era o estado natural de aprendizagem e desenvolvimento do ser humano. Á escala evolutiva, a escola, essa sim a maior experiência social alguma vez feita, e a entrega de crianças em instituições pedagógicas desde pequenas, apenas existe há pouquíssimo tempo- mas tempo suficiente para criar uma série de desequilíbrios e disfunções na sociedade.

É tempo de repensar os relacionamentos com as crianças que partilham a nossa vida,repensar os modelos de vida ditos normais mas altamente insatisfatórios e doentios, repensar as exigências académicas e repensar a nossa noção de felicidade. Será que alguém tem o direito de sacrificar a felicidade actual de outrém em prol de um eventual sucesso material futuro? Será que é necessário retirar as crianças dos pais e das suas comunidades desde os poucos meses até à idade adulta, colocando-as durante toda a sua infância e juventude em edifícios fechados, onde são obrigadas a executar tarefas, cumprir ordens, memorizar e repetir, decorar matéria arbitrária igual para todos e regurgitá-la em testes e exames?

Será que é este o modelo de vida que queremos para nós e para os nosso filhos?

Os unschoolers dizem que não. Levantam-se contra a opressão e apoiam e celebram as capacidades, o potencial e a variedade do ser humano.