Manifesto contra a violência na educação

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Nos círculos de unschoolers e de famílias que optam por criar as crianças de forma consciente, respeitosa e amorosa, todos que conheço- e são imensos!- rejeitam abertamente a violência. Concordamos que bater, castigar ou ameaçar são atitudes inaceitáveis e absolutamente prejudiciais para o desenvolvimento harmonioso das crianças e danoso para o relacionamento entre pais e filhos. Concordamos que as crianças são seres humanos dignos de respeito desde o primeiro momento de vida e que nós, adultos, temos a obrigação de salvaguardar o seu bem-estar físico e emocional e proporcionar um ambiente equilibrado, que nutre e apoia o desenvolvimento do máximo potencial humano de cada criança. Concordamos todos, defendemos estes ideais e, no entanto, poucos de nós conseguem viver relacionamentos não violentos. Poucos de nós conseguem ultrapassar os momentos difíceis, as exigências e os desafios do quotidiano com crianças, sem gritar, ameaçar, dar “uma palmadinha”, cortar privilégios, humilhar ou forçar os seres humanos frágeis e vulneráveis, que mais amamos neste mundo…

Porque poucos ou nenhuns de nós tivemos a felicidade de crescer em famílias sem violência. Somos todos resultado de pais mais ou menos disfuncionais, materialistas, desconectados, inconscientes, stressados, emocionalmente desequilibrados, carentes… que- por sua vez- são os filhos dos nossos avós disfuncionais, materialistas, desconectados, inconscientes, stressados, emocionalmente desequilibrados, carentes… Que, por sua vez, sofreram as mesmas violências dos seus pais, e por aí fora, geração a geração.

Os danos psicológicos provocados por violências perpetuam-se, até que haja alguém com força de vontade para os enfrentar, trabalhar e para mudar. Neste momento, somos nós, pais de hoje, que temos a obrigação de enfrentar os nossos demónios, para que não sejam passados mais de geração em geração. É a nossa responsabilidade analisar a nossa infância sob um olhar mais crítico, informado e consciente, e descobrir os padrões violentos que perpetuamos, muitas vezes sem nos apercebermos. Descobri-los, desmascará-los e parar com eles.

Para tal é necessário, em primeiro lugar, definirmos para nós o conceito de violência. Aqui exponho a minha visão, pois defendo que os métodos educacionais clássicos e correntes são, na sua base, de profunda violência.

Ninguém questiona se uma palmada é violenta, ou se gritar com as crianças é violento. Todos sabemos que sim. Mas há variadíssimas formas subtis de violência e abuso emocional que aplicamos diariamente, sem sequer questionar; achando perfeitamente normal e como fazendo naturalmente parte da interacção entre adultos e crianças.

Está provado que a violência emocional pode provocar os mesmos problemas que a violência física. Que os pais de ontem que batiam nos filhos com o cinto não são piores ou melhores (em termos de efeito do abuso) que os pais de hoje que aplicam métodos de sleep training ou castigos baseados em retirar amor. Em termos neurológicos, psicológicos e até físicos (hormonais, por exemplo), os castigos violentos tão comuns no passado têm os mesmos efeitos nefastos que muitos métodos educacionais actuais.

Há que desmistificar e trazer à luz do dia todo o arsenal educacional actual que tanto inibe a felicidade e o desenvolvimento equilibrado das crianças.

Assim, apresento aqui alguns aspectos comuns no relacionamento entre pais e filhos, que não são tão normais e inócuos quanto pensamos… que constituem, isso sim, formas subtis de violência, alguns com efeitos drásticos, a longo prazo. Não mencionarei as situações de violência óbvia com as quais todos concordamos, mas as interacções subtis, disfarçadas e frequentes, que corroem a longo prazo…

Assim considero violência:

  • Obrigar ou manipular uma criança a fazer algo/ ir para qualquer sítio/ estar com alguém, se não quiser (se tiver aversão!)

    (Exemplo: obrigar uma criança a comer, ir para a escola, para uma actividade, estar com familiares, professores ou qualquer pessoa com quem se sinta desconfortável.)

    É comum que os adultos decidem o quê, quando e que quantidade uma criança deva comer, sem atender a opinião ou necessidades da criança. Dado que os adultos estão mais informados acerca dos benefícios e malefícios de determinados alimentos, cabe-lhes a eles seleccionar o que há em casa para comer. Mas é um ataque à integridade se os adultos forçam, insistem ou manipulam as crianças para comer. A longo prazo, inibe a capacidade de auto-regulação, a auto-determinação e o reconhecimento das próprias necessidades.

Também é comum os pais decidirem que a criança deva frequentar o infantário, a escola, a música ou outra actividade, sem ter em conta as necessidades e predisposições da criança. Geralmente apenas é tida em conta a situação de emprego dos pais e o desejo que estes têm para o futuro (profissional) dos seus filhos.

Enviar uma criança para a escola contra a sua vontade é violência. Ocupar o tempo livre da criança com atividades escolhidas pelos pais, é violência.

São situações de objetização da criança- não decide sobre a sua vida nem de acordo com as suas necessidades, mas é objeto das ideias, aspirações e agendas dos seus pais. Aprende a ser passiva, sem escolhas e sem direito sobre a sua própria vida.

Nesta linha acrescento ainda o abuso corrente que consiste em forçar as crianças a agradecer, cumprimentar ou dar beijinhos e abraços. No caso de bebés, o abuso de os dar de colo em colo, muitas vezes sem que tenham confiança com os adultos que lhes pegam. Mais uma vez, a objetização da criança.

  • Direccionar os esforços educativos no sentido de ter como resultado uma criança ”bem comportada”.

    Grande parte das interacções entre adultos e crianças consistem em ordens, regulamentações, críticas e ameaças, para que a criança tenha comportamentos socialmente bem-vistos e aceites. Naturalmente os pais tem a responsabilidades de exemplificar, guiar e explicar à criança o que é adequado e o que não é. Porém, é uma ameaça à auto-estima se a criança sofre permanentes avisos, críticas e correcções ao demonstrar-simplesmente- a sua imaturidade, ingenuidade e impulsividade infantil.

É importante relembrar, que a criança “bem comportada” geralmente é a criança que perdeu a auto-determinação, a própria opinião e a auto-estima. É um preço muito alto a pagar para agradar aos pais, vizinhos, avós e professores…

Negligência– é um meio poderoso para minar a auto estima, a confiança e o bem-estar geral da criança. Não me refiro à negligencia no sentido comum da palavra, mas à forma muitas vezes inconsciente, em que os adultos “não vêem” a criança. Muitas vezes tenho conhecimento de situações em que as crianças precisam claramente do apoio dos pais, mas estes as ignoram completamente (geralmente sem notar!). Há aquela mãe que continua a conversar como se nada fosse, enquanto o seu filho chora desalmadamente. Aquele pai que continua a olhar para o telemóvel, mesmo que o seu filho necessite urgentemente de desabafar. Ou aqueles pais que conversam com os amigos adultos no jantar de família, sem ligar nenhuma às crianças presentes. Ou os encontros em que apenas os adultos falam entre si e ninguém se lembra de incluir as crianças na conversa, muitas vezes nem de as cumprimentar! Isto são situações de profunda violência, pois transmitem a mensagem de que as crianças são seres de segunda classe, que a sua presença é um fardo ou até indesejada. Que as suas necessidades são irrelevantes.

De facto, muitos me dizem que lhes custa conversar com as crianças, que precisam mesmo de fazer um esforço por se lembrar de trocar umas palavras simpáticas com as crianças que encontram nas reuniões de familiares e amigos. Isto é apenas o resultado de uma concepção enraizada da imagem da criança como ser insignificante, que se deve comportar e não dar chatices… Poucas pessoas desfrutam realmente de conhecer uma criança a fundo, de ser sua amiga e de descobrir as facetas da sua personalidade, como acontece nas amizades com adultos! Muitos que se apercebem do fosso entre adultos e crianças, esforçam-se para o ultrapassar, mas- sem terem tido exemplos válidos neste caminho- acabam por forçar conversas, sem grande convicção. As crianças naturalmente sentem que não são levadas mesmo a sério, que o interesse é uma farsa e não é genuíno…

Por experiência própria, de alguém que adora estar na presença (da maioria ) das crianças, considero um prazer e uma honra ser amiga de alguns seres humanos maravilhosos entre os 0 e os 18 anos de idade!

Castigos e recompensas– curiosamente, ambos têm o mesmo efeito: o de distrair da acção em si e de direccionar a atenção da criança apenas para o desempenho. Isto é, se uma criança recebe uma recompensa por arrumar o seu quarto, o valor da arrumação, o desejo de ajudar e a motivação por ter um quarto limpinho cedem lugar à caça pela recompensa. O mesmo com os castigos- sabendo que irá ser castigada se tiver um quarto desarrumado, o esforço da criança vai no sentido de evitar o castigo, em vez de ser direccionado para a compreensão do valor intrínseco da arrumação e da cooperação. Pior ainda, castigos e recompensas são estratégias manipuladoras do comportamento, que ignoram as necessidades, os interesses e motivações da criança. Constituem violência pois estabelecem uma hierarquia de poderes, na qual a criança se situa, impotente, no fundo, à mercê das vontades do adulto omnipotente. É uma relação de abuso de poder, que dificulta o desenvolvimento de uma consciência moral e cívica.

Indirectamente, as notas e avaliações escolares funcionam como castigos e recompensas. A criança, sem ter solicitado- é sujeita a avaliações pelo seu desempenho e tem de se submeter a uma série de rituais, geridos por adultos para obter uma recompensa- a boa nota. Assim, as boas notas pouco têm a ver com as capacidades intelectuais, morais, cívicas e emocionais da criança, mas representam a sua capacidade de se submeter aos jogos de poder e corresponder a objectivos alheios às próprias necessidades. 12 anos de escolaridade correspondem assim a 12 anos de submissão a adultos aparentemente omnipotentes, que decidem prioridades e invadem a privacidade intelectual, artística e emocional das crianças, para, no final, lhes entregar uma recompensa em forma de diploma: um número impresso num papel que classifica aquele ser humano. Se isto não é de uma violência extrema e refinada!

Sobre-protecção- poucas pessoas têm ideia de que a sobre-protecção pode prejudicar gravemente a saúde emocional dos seus filhos. É um lugar-comum pensar que uma criança sobre-protegida é simplesmente aquela que está sempre com a mãe e que não precisa de se esforçar, recebendo “a papinha toda feita”. Isto existe, mas não é sinonimo de sobre-protecção. Por exemplo, estar com a mãe ou com outras figura primária de referencia afectiva (se envolta num relacionamento de vinculação segura- secure attachment) pode ser uma forma importante de salvaguardar o desenvolvimento emocional e físico saudável. A sobre-protecção que constitui abuso, é outra. É o que se chama helicopter parenting– quando a criança é activamente limitada a explorar o mundo, a aprender através de erros e dificuldades e a tomar decisões ou a encontrar as estratégias próprias para solucionar problemas. A criança- muitas vezes devido a medos ou disfunções parentais inconscientes, é mantida num relacionamento de dependência que a impede de se desenvolver ao seu ritmo intrínseco.

A lista poderia continuar muito mais. Abusos emocionais subtis são as humilhações quotidianas, o desrespeito pelo ritmo individual, a invasão da privacidade, o controlo, a rotulação, em suma, todas a atitudes e interferências no fluxo de amor e apoio incondicional.

Por mais que todos nós amemos os nossos filhos, apenas contribuímos para que mantenham a sua personalidade única e desenvolvam o seu glorioso potencial humano, se, activamente, rejeitarmos a violência e abraçarmos o caminho para a cura.

Para tal, precisamos de começar em nos próprios, buscar ajuda, apoiar-nos mutuamente, informar-nos e reestabelecer as nossas prioridades. O mais difícil e doloroso é assumir que nós próprios também fomos sujeitos a violência e abuso (emocional e físico).

Muitos adultos justificam as crueldades às quais foram submetidos na sua infância com frases como: “Aquela palmada foi merecida! Eu era mesmo teimoso…” ou “Eu também apanhei e não me fez mal nenhum!”. Aceitar a violência e desculpá-la é exactamente o sinal de que interiorizamos a mensagem de que merecemos ser violentados, que outros, mais poderosos, tinham razão em nos violentar. Este é o sinal de máximo alarme, pois reflecte a interiorização de mensagens destrutivas, a culpabilização, os problemas de auto-estima e a imaturidade no desenvolvimento das valores éticos e morais. É apenas o sinal de que o autor destas frases foi, efectivamente, violentado e abusado!

Outra grande dificuldade no processo de mudança para relacionamentos sem violência, consiste nas marcas profundas, muitas vezes no subconsciente, que condicionam as nossas atitudes. Assim, é nos momentos de grande tensão que são activados os padrões antigos no nosso cérebro que nos levam a reagir, repetindo modelos comportamentais que, conscientemente, não queremos perpetuar.

Sabendo que o nosso cérebro possui uma enorme plasticidade, e que é possível reestruturar as ligações sinápticas e modificar o nosso comportamento- e até o nosso pensamento e as nossas emoções- é o primeiro passo para a mudança. Desta forma, podemos treinar-nos a reagir de forma diferente nos momentos complicados. No início, será muito difícil. Mas se aprendemos a fazer uma pausa nas situações que nos provocam, e se não falarmos nem agirmos por uns momentos, ultrapassamos já o primeiro momento de fúria e de reacções espontâneas negativas, vindas do subconsciente. Aqui, lembro me sempre de uma frase do psiquiatra Gabor Maté:” You cannot parent from a place of anger!”

Passado o momento de tensão máxima, podemos aplicar estratégias de resolução de problemas que não sejam violentas ou abusivas. Para tal, convém escolher, num momento calmo de reflexão, o tipo de comunicação e o modo de actuação que queremos aprender e transmitir aos nossos filhos. Nas situações de crise flagrante, e após termos feito uma pausa consciente, podemos então agir de acordo com o que tínhamos decidido de antemão. A longo prazo, e tentando usar estas estratégias muitas vezes, iremos reestruturar as partes do nosso cérebro que estavam condicionadas por violências vividas na infância. Quanto mais as ligações sinápticas forem utilizadas, mais fortificam! E assim começa o caminho para a cura- nossa e dos nossos filhos- e a possibilidade de inverter as situações violentas, transformando campos de batalha em espaços de comunicação e empatia.

Não é fácil. Somos quase todos vítimas de maus tratos emocionais e repetimos as experiências que se embrenharam no nosso cérebro, nos anos decisivos da nossa infância.

Eu não sou excepção. Não escrevo para moralizar, mas para partilhar as minhas ideias, investigações e inquietações, falar da minha experiência na procura de soluções humanas, amorosas e empáticas. Não, eu não sou excepção! Sou neta de um homem que, após a 2a Guerra Mundial, na Alemanha, foi deportado para a Sibéria e se suicidou; de uma mulher que viveu duas guerras mundiais na Alemanha, filha- por sua vez- do meu bisavó extremamente religioso e brutal. Sou filha de um homem cuja primeira recordação foi estar numa caminha, a chorar pela mãe, e de repente ouvir o som de uma bomba a cair na casa ao lado, cuja força de explosão rebentou o tecto do quarto. Ele lembra-se que, de repente, viu entrar o céu azul. A minha mãe, por sua vez, viveu os primeiros oito anos de vida num hospital na Hungria Comunista, vítima de tuberculose e sem amor e carinho maternal. O meu avó materno era boxer e exercia violência doméstica à luz do dia. etc.etc.

Todos temos violências abertas ou subtis na biografia dos nossos antepassados. E embrenhadas na estrutura do nosso cérebro. Os que cresceram em Portugal, numa aldeia pacata da qual têm recordações kitsch e nostálgicas, também não são excepção. Também aprenderam cedo a reprimir suas necessidades emocionais, a reprimir sua opinião, a seguir o pater familias e os ensinamentos de dupla moral da igreja. Apanharam castigos, palmadas ou pior, e foram obrigados a viver de acordo com os valores de outrem. Todos temos em comum que fomos sujeitos a violências diversas e, em consequência, sofremos de problemas de auto-estima, de auto-determinação, de auto-controlo…De depressões, ansiedades, pânico, vazio interior, narcisismo, e por aí fora.

Mas é nossa obrigação de acabar de uma vez por todas com esse negócio feio que é a educação tradicional e corrente. Vamos trabalhar em nós, para que o brilho glorioso das crianças nunca seja quebrado.

Diariamente na luta árdua contra os nossos condicionalismos internos, estamos juntos!