Ecrãs ou desafios? Em defesa da vida real

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O mundo em que as nossas crianças crescem está repleto de computadores, telemóveis, televisão e outros aparelhos eletrónicos. A internet, os filmes, os jogos e as funcionalidades dos aparelhos eletrónicos fazem parte da vida moderna e do ambiente quotidiano de quase todas as crianças e por isso julgo necessário tomar posição em relação a eles, da mesma forma que julgo necessário tomar posição em relação à escola, à religião, ao consumo, à alimentação, à política…

Neste texto apresento a minha perspetiva pessoal, baseada na minha experiência e em inúmeras leituras sobre os efeitos da utilização de dispositivos eletrónicos.

Para começar, adianto que os meus filhos não jogam jogos de computador. Não por radicalismos, fundamentalismos, ideias nostálgicas dos tempos passados sem computador ou medos irracionais da maldade do mundo virtual. Por regra, não jogam jogos de computador porque eu, simplesmente, penso que não lhes faz falta. Não lhes faz bem e não há nenhuma necessidade física, cognitiva ou psicológica para jogar Minecraft, Game of Thrones ou o que quer que seja.

Nos meios unschooler há imensas pessoas que acreditam piamente na capacidade de auto-regulação do organismo, o que em muitos casos equivale ao que eu chamo o laissez-faire: acreditam que as crianças podem comer apenas Nutella e salsichas durante semanas, pois o corpo acabará por dar sinais de que precisa de outros nutrientes, e a criança acabará por comer alimentos saudáveis; acreditam que as crianças podem estar perante um ecrã durante semanas a fio, pois por fim haverá uma auto-regulação e a criança tomará consciência de usar os electronic devices com moderação…

Sim, de facto existe a capacidade de auto-regulação do organismo, mas essa está intimamente ligada a um ambiente adequado em que haja a possibilidade de satisfazer as necessidades humanas de forma natural, como sempre aconteceu nos milhões de anos de evolução do ser humano. Porém, actualmente estamos tão longe deste meio natural em que o ser humano estava inserido, que as premissas que funcionavam para um caçador-recolector não funcionam para uma criança moderna de uma cidade europeia. Se uma pessoa no seu meio natural e em perfeita saúde física e emocional reconhece que determinada fruta não lhe faz bem, já o mesmo não acontece a uma criança urbana, sedentária, habituadíssima a alimentos super-açucarados, com intensificadores de sabor e industriais. Assim, faz sentido que um caçador-recolector se alimentava de bagas e raízes se quisesse e pudesse ate durante muito tempo, até que o corpo lhe desse sinais que precisava de carne. No entanto, uma criança que se quer alimentar apenas de fast food desconhece os sinais do seu corpo e não tem capacidade de reconhecer os efeitos nefastos do fast food a longo prazo. O mesmo acontece com os electronic devices: funcionam a um nível tão subtil, mas tão intenso, que uma criança (e até um adulto) geralmente é incapaz de sentir os efeitos nocivos.

Por isso defendo que os adultos têm a responsabilidade de tomar decisões informadas, e uma delas é, para mim, limitar o usos de computadores, televisão e jogos virtuais.

Um dos motivos é, na minha opinião, o facto de ser um mundo virtual. Uma criança, como todos sabem que se ocupam com desenvolvimento infantil, aprende tudo sobre o mundo através dos seus sentidos. Necessita de sentir, mexer, cheirar, correr, trepar, em suma, interagir ativamente com o mundo que a rodeia. É através da interação em que são estimulados todos os sentidos, que a criança aprende tudo o que necessita. O que nos adianta que aprende os números em inglês através de um jogo de computador, ou resolve problemas matemáticos num programa virtual? Para o desenvolvimento íntegro, complexo e total da criança, isso é insignificante. Insignificante também para a sua felicidade, seu bem-estar físico e emocional, sua autoestima…

Muita gente me diz: “Ah, mas o meu filho aprendeu a ler e escrever (ou matemática, ou o que quer que seja) através do Minecraft!” E então?? Para mim, isso não justifica as inúmeras horas que essa criança passou sentada, colada a um ecrã, embrenhada num jogo virtual, sem conexão emocional com o mundo real. Prefiro que o meu filho não aprenda a ler e escrever, mas que tenha equilíbrio físico, que conheça o canto das aves, veja o nascer do sol, suba a uma árvore, nade num rio selvagem… E tenho a certeza absoluta, por experiência com os meus filhos, que aprenderá a ler e escrever também, quando estiver preparada, mesmo sem o Minecraft!!

Outro aspeto que me preocupa é o conteúdo dos filmes e jogos. Para além de, geralmente, fomentar estereótipos, a grande maioria dos filmes e jogos transmite uma mundivisão linear, artificial e superficial. As personagens são geralmente de pouca profundidade psicológica, os enredos simples e até sem sentido, os valores transmitidos, banais. Psicólogos e Marketing trabalham em conjunto para ganhar e manter os pequenos consumidores: assim, para meninas há o mundo à moda da Disney, em que dominam imagens kitsch de princesas, fadas e elfos, e para os meninos, o mundo da força bruta, da luta violenta, da velocidade e da concorrência agressiva.

Na minha opinião, há mais mundo para mostrar, mais vida para viver!

Não quero que a cabeça e o coração dos meus filhos sejam povoados por Elsas, Annas, Hulks ou Mc Queens… E que acreditem nas mensagens subtis de que o mundo é preto e branco, que há “os bons” e “os maus”, que o perigo espreita em cada canto, e que os bonitos são bons e os feios maus, que as princesas ou os violentos são ideais a seguir.

Nós adultos pensamos por vezes que as crianças sabem que é “só um filme” ou “só um jogo”. Os estudos demonstraram, porém, que as crianças, até muito tarde, não conseguem distinguir fantasia da realidade e que a infância é uma fase crucial para a formação da mundividência: é na infância que se forma e estabiliza o modo como alguém vê o mundo e como vê a sua posição nesse mundo. Nenhum jogo, nenhum filme, nenhuma palavra passa despercebida ou sem efeito na criança, ainda tão aberta e vulnerável a qualquer input.

Preocupa-me também a mercantilização da infância. Os filmes e videojogos para crianças e jovens são um mercado milionário, em crescimento. Mais uma vez, psicólogos e marketing unem esforços- não para satisfazer as necessidades emocionais e físicas das crianças, mas para vender.

Desta forma, nada é sagrado. Usam se todos os meios para fascinar as crianças, para as transformar em consumidores ávidos e transmitir aos pais que comprem mais. Mochilas do Frozen, Canecas dos Minions, T-shirts do Super-homem, peluches do Mickey Mouse

Para além de transformar os quartos infantis em exposições da Disney e semelhante, e as festas de aniversário em cópias humilhantes de lojas de franchising, essas imagens comerciais limitam o desenvolvimento da criatividade.

Criatividade não é imitação. Uma criança que brinca que é o Steve do Minecraft ou a Elsa do Frozen, não está a ser criativa: está sim a imitar, a representar algo que a marcou e que precisa de trabalhar interiormente, está a partir de algo preparado para ela por adultos desconhecidos.

Aqui entra o problema da conceção de criatividade. Julgo que o conceito é mal-interpretado, pois parte-se do princípio que tudo o que se produz é resultado de um processo criativo.

Porém, o processo criativo só existe a partir de ideias absolutamente únicas e originais!

Muitos pais falam me com orgulho acerca dos seus filhos como sendo extremamente criativos. Crianças que escrevem, desenham, constroem imenso, para satisfação dos pais e professores. Eu olho de perto: vejo histórias que repetem cenários de filmes e enredos simplicíssimos, desenhos estereotipados, trabalhos manuais previsíveis, com resultados rápidos, resultados de pôr na prateleira por cima da lareira, em exposição.

Essas crianças não são criativas, na verdadeira aceção da palavra. Não criam, mas produzem. É uma diferença substancial. E acredito que o mundo pré-fabricado da televisão, da escola e dos jogos de computador têm imensa responsabilidade na perda da criatividade.

Há muitos pais que dizem que se sentem descansados pois os seus filhos nunca virão a ficar dependentes dos jogos de computador, dado que têm uma vida emocional estável…

Referem-se ao facto de que as dependências, em geral, são resultado de carências emocionais e traumas e os jogos (ou as drogas, álcool, etc.) são apenas um sintoma e não a causa da dependência. Por isso, crianças emocionalmente saudáveis não ficarão dependentes nem se deixarão influenciar pelo mundo virtual. Até concordo que crianças emocionalmente estáveis têm menos probabilidade de ceder a dependências, mas questiono– quem nos garante que as nossas crianças são, sempre e a qualquer momento, emocionalmente estáveis? Que possuem maturidade para distinguir fantasia da realidade, qualidade de lixo, adição de passatempo?

No mundo moderno, de famílias nucleares sem rede de amigos e familiares que apoiam e dão input e reforços emocionais e físicos, quem ainda está minimamente emocionalmente estável e fisicamente saudável? Poucos, diria eu. E vejo que o mundo virtual é muito aliciante para crianças desprovidas do clã estimulante, crianças de apartamento ou em situações de crise emocional (nascimento de irmãos, divórcio, mudança de casa, pressão académica, negligência emocional, etc.)

Os filmes e desenhos animados são uma maneira fácil de escapar da realidade, como todos sabemos. É demasiado atrativo poder ligar um botão e receber imagens preparadinhas com todos os efeitos subtis que nos agradam. Basta encostar e consumir.

Junta-se a isto o enorme poder atrativo dos videogames, que se resume aos seguintes pontos:

– Os jogos virtuais (e também os programas televisivos) oferecem oportunidade para explorar interesses reais da criança, através de um formato mais estimulante.

– O jogador tem a possibilidade de adotar uma identidade virtual mais poderosa e interessante do que sua identidade real.

– Possibilita experiências virtuais impossíveis na vida real.

– Requer muito menos esforço do que o aprofundamento dos interesses na vida real.

– Reforça o jogo contínuo através de conexões sociais online e de um sentido de sucesso gradual cuidadosamente engendrado pelos criadores, que se baseia nos princípios psicológicos do behaviorismo (reforço de comportamento).

Assisto a uma situação absurda que me preocupa: por um lado, há cada vez mais pais que se preocupam com os efeitos nefastos da escolarização e que tomam consciência da manipulação e do controlo exercido através da escola. Cada vez mais pais que têm coragem de tirar os filhos da escola e encetar um caminho para a liberdade mental e emocional. Pelo outro lado- que absurdo- há igualmente um número crescente de crianças não escolarizadas que passam o seu quotidiano em frente aos ecrãs, sem que os pais se apercebam que esses são igualmente veículos de manipulação e controlo de comportamento, de distração, banalização e inculcação de ideias pré-fabricadas!

Por tudo isso, decidi limitar o acesso dos meus filhos aos ecrãs- tablets, televisão e computador. De vez em quando vêm um filme, por acaso é raro. Não sentem falta. Eles utilizam o computador para pesquisar informação, escrever, descarregar música. Como outra ferramenta qualquer e apenas pontualmente.

De resto, brincam na vida real. Exploram o mundo real com todos os sentidos. Emergem em oportunidades estimulantes, amizades reais desafiantes, problemas a resolver, compromissos a fazer…. Aborrecem-se e não sabem o que fazer. Procuram soluções e ocupações. Mantêm os seus pensamentos, a sua mundivisão e sua fantasia únicos, extravagantes, excêntricos.

Esforço me para acompanhá-los e nutri-los para poderem desenvolver-se à sua única maneira, longe de ideias pré-fabricadas e sem serem alvo de estratégias de pedagogia, psicologia e marketing.

Sinto me responsável por protege-los do mundo virtual do qual, com toda a certeza, não sairiam ilesos. Sinto-me responsável por proteger os seres vulneráveis, inocentes e extremamente criativos que eles são.

Até que tenham competência para decidir, também, sobre este assunto…

Alguma bibliografia:

http://pediatrics.aappublications.org/content/132/5/958.full

http://www.huffingtonpost.com/cris-rowan/10-reasons-why-handheld-devices-should-be-banned_b_4899218.html

https://www.sciencedaily.com/releases/2013/09/130905160452.htm

http://www.gamasutra.com/view/feature/3085/behavioral_game_design.php?print=1

Set Free Childhood: Parents’ Survival Guide for Coping with Computers and TV (Early Years) Paperback – September 15, 2003, by Martin Large

Kids and Credibility: An Empirical Examination of Youth, Digital Media Use, and Information Credibility , Paperback – July 9, 2010, by Andrew J. Flanagin (Author), Miriam J. Metzger (Author), Ethan Hartsell (Contributor), & 4 more