Pedagogia açucarada ou a confusão entre aprender e ensinar

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Costumo escrever textos de análise crítica à situação educacional corrente, mas não falar da minha própria vida ou de aspetos privados da minha família. Penso que já existem inúmeros blogs, alguns bons, outros aborrecidos, que têm como motivo o quotidiano familiar, os acontecimentos pessoais e descrições mais ou menos intimistas da vida das famílias. Nunca foi esse o objetivo do meu blog, pois gosto mais de uma abordagem abstrata, teoricamente aprofundada, fundamentada. Pretendo divulgar ideias menos comuns, espicaçar as mentes e fundamentar uma visão diferente da vida, da educação e do ser humano, no geral. Mas este texto será um pouco diferente, pois vou abrir uma exceção para descrever aspetos pessoais que me parecem de particular interesse para a compreensão da ideia geral que aqui pretendo transmitir.

Para contextualizar, vamos pensar no mundo educacional institucional corrente. Há as escolas ditas tradicionais, há as escolas de elite, há as escolas e escolinhas “diferentes” e, por fim (ou no início-como queiram) as comunidades de aprendizagem. A maioria das pessoas opta por propostas educacionais dentro deste panorama, pensando que cada opção é decididamente diferente e significativamente melhor que a outra. Os pais de alunos de escolas de elite pagam caro porque acreditam que assim proporcionam mais possibilidades e melhor educação aos filhos. Os pais das escolas tradicionais criticam, mas acreditam que os miúdos têm que aprender, e por isso precisam de ir à escola, e pronto… Os pais que optam por pôr os filhos em escolas alternativas ou comunidades de aprendizagem, também acreditam que estão a proporcionar uma educação mais equilibrada, mais individualizada, etc. Sem dúvida que o ensino numa escola pequena com abordagem Montessori ou MEM pode ser mais individualizado do que numa escola tradicional com turmas de 25 alunos e transmissão vertical de matéria. Sem dúvida que é melhor que as crianças estejam numa escola em que há alimentação biológica na cantina ou em que possam trepar às arvores no recreio de meia hora, em vez de estarem numa escola com alimentação industrial e recreio de cimento. Sem dúvida que há sempre algo pior do que a situação em que nos encontramos.

O grande absurdo é, no entanto, que se gasta tanta energia e recursos em variações mais ou menos açucaradas da escola, quando está mais que visto e mais que comprovado, que as crianças não precisam da escola!

Está mais que provado (não só através da observação empírica, mas também por estudos na área da neuro-biologia, ciência do desenvolvimento infantil, psicologia, etologia e antropologia), que o ser humano não necessita de estar num espaço preparado artificialmente, para aprender tudo o que precisa para a vida. Alias, está provadíssimo que o ensino é contraproducente à aprendizagem  (refiro-me aqui à aprendizagem eficaz-aquela que fica, que faz sentido e que a pessoa integra na sua vida presente e futura -não me refiro à aprendizagem recetiva ou repetitiva, que fica uns tempos e depois se desvanece como se nada fosse!)…

Há aqui um desfasamento gigantesco entre aquilo que se defende e aquilo que se faz: qualquer pai ou professor defende que as crianças devem aprender ao seu próprio ritmo, que cada criança tem seu único potencial, seus talentos e suas dificuldades que é preciso respeitar e que cada criança é única e merecedora de uma aprendizagem individualizada, resultante de motivação intrínseca. E depois, os mesmos pais e professores acumulam as crianças em espaços fechados, dependentes de avaliações externas, forçam a aprendizagem recetiva e repetitiva de matéria uniforme, controlam a performance, estipulam o modus operandi, manipulam a aquisição de competências, classificam os resultados.

Como podemos falar de ritmo individual, de aprendizagem por motivação intrínseca, de respeito pelo ser humano, se as crianças desde pequenas são alvo de manipulações pedagógicas, seleção por produtividade e expectativas limitadas do mundo adulto?

E aqui entra a minha perspetiva de crítica radical a qualquer tipo de escola, escolinha ou comunidade de aprendizagem (na verdade, comunidade de ensino !) São tudo variações melhores ou piores da mesma atitude perante a infância e a aprendizagem. São locais de culto para uma mundivisão adultista que vê na criança algo a modificar, transformar, manipular…

(Atenção- a minha crítica vai sempre no sentido de negar a utilidade das instituições e de chamar a atenção para os efeitos negativos das mesmas- no entanto, não critico os pais por terem de ir trabalhar e precisarem de um espaço para guardar os filhos. Só não me digam que é para o bem das crianças!)

Para quem me quer atirar ovos podres agora e defende a sua opção por uma escola alternativa ou uma comunidade de aprendizagem, vou descrever uma história verídica. Num dos encontros sobre educação nos quais fui convidada como oradora, vários pedagogos apresentavam os seus projetos que consideravam “diferentes”. Professores de escolas alternativas descreviam como trabalhavam a matéria e as competências com os alunos e todos, sem excepção, achavam que estavam a ser vanguardistas e super radicais. O maior aplauso, porém, foi para um pedagogo dum projecto escolar conhecido (cujo nome não vou divulgar). Ele discursou durante uma hora, sobre como conseguiam respeitar os ritmos e os interesses de cada aluno, na sua escola. Deu um exemplo, duma criança que queria construir uma casa na árvore. Os seus professores disseram que sim, que esse seria o seu projeto desse semestre (essa escola trabalha “por projetos”). Então, o menino foi obrigado a elaborar listas com o material que iria necessitar, os preços, o local onde os compraria. Teve que pesquisar sobre diferentes tipos de habitações, desde casas de palha a prédios, como eram construídos, que máquinas e matérias eram usados, que tipos de pedra existiam, como se trabalhava a pedra, como se faziam tijolos, cimento, betão, ferro. Depois, teve que estudar, pesquisar, escrever, desenhar, etc. a história das habitações, desde o homem pré-histórico que habitava nas cavernas, até aos fenícios e gregos e até aos dias de hoje. Em seguida e dado que o menino queria era fazer uma casa na árvore, teve que estudar os diferentes tipos de madeira, as diferentes árvores, seus habitats, suas características, etc. Por fim, quando já tinha as tábuas, cordas e os pregos para fazer a sua casa na árvore, teve que fazer estudos matemáticos acerca do comprimento, da largura, da espessura das tábuas, os nós mais adequados para utilizar a corda, os diferentes tipos de pregos, etc. Finalmente pôde pregar e atar as tábuas na árvore, já no final do semestre! O pedagogo contou, orgulhoso, como o menino “aprendera tanto” através do projeto que resultou “do seu próprio interesse”, e como o professor conseguiu “dar matéria” de história, matemática, biologia, física e até artes, de forma tão diferente e divertida!

Eu não vejo isso assim. Para mim esta história é mais um degradante exemplo da total manipulação e subjugação da criança, e da ideia corrente de que a vida é compartimentada por “matérias”, que tudo o que a criança faz tem de se enquadrar numa ou noutra disciplina escolar, que se pode enganar deliberadamente uma criança, impingindo-lhe tarefas do interesse do pedagogo, etc. etc…  Acredito que o tal menino só queria era brincar livremente numa casa da árvore…e que possivelmente nunca mais na vida vai querer saber de casa na árvore ou outro tipo de casas! Ou então, esse menino já estava de tal forma formatado que esse projeto acima mencionado representou a máxima liberdade que jamais teve, e, portanto, até gostou! Que triste!

Contei esta história para exemplificar a ideia limitada e limitadora da aprendizagem e da criança, que nós adultos costumamos ter. E se a criança não quiser aprender sobre os fenícios e gregos? E se as noções de matemática não tiveram o mínimo impacto na vida da criança (mesmo se ela as tivesse decorado?) E se tivessem deixado a criança em liberdade, para construir uma casa na árvore à sua própria maneira, ajudando apenas se solicitados? Talvez teria surgido a casa da árvore mais louca, fantástica e criativa alguma vez feita, e o menino tivesse passado um tempo de vida inesquecível??

Quando repensamos as nossas noções de aprendizagem, de utilidade, de desenvolvimento íntegro, de felicidade, de alegria de viver, de criatividade, todas estas ideias escolarizadas caem por terra. Como há poucas crianças verdadeiramente livres, temos poucos exemplos do que é possível acontecer quando deixamos que a criança se desenvolva de acordo com as suas disposições internas, sem intromissões pedagógico-manipuladoras e controladoras dos adultos.

Aqui entra a minha história pessoal, pois, apesar de diariamente me confrontar com as minhas limitações e sentir que há imensos aspetos em que falho enquanto mãe e ser humano, no geral, há um ponto em que considero que a minha família pode ser um bom exemplo: na liberdade que os meus filhos vivem. Uma liberdade que apenas está limitada pelo respeito pelo outro e os limites humanos e físicos, mas que não é condicionada de forma propositada ou com intenções pedagógicas. Assim, os meus filhos vivem sem qualquer imposição académica, sem manipulações pedagógicas ou rotinas impingidas. Simultaneamente estão envoltos num relacionamento de confiança e amor com a sua família, estando em conexão emocional comigo, o que lhes dá o porto seguro a partir do qual exploram o mundo à sua própria maneira. Assim, decidi descrever aqui alguns processos de aprendizagem e desenvolvimento de crianças livres, que são tão diferentes do quotidiano tradicional da criança escolarizada e que demonstram o quanto uma criança aprende, sem que seja necessário nós adultos controlarmos, proibirmos, gerirmos ou manipularmos a forma e o conteúdo da aprendizagem.

Os meus filhos, o Timo de 9 e o David de 6 anos, costumam ter interesses parecidos, pois quando um deles se apaixona por algum assunto, o outro acaba por gostar também e participar na exploração e no desenvolvimento desse interesse. Assim, há uns meses o Timo começou a reparar nos diferentes formatos de garrafas de vidro. Lembravam-lhe os frascos para poções mágicas dos livros sobre magia e bruxedos, e começou a colecionar garrafas de vidro de formatos invulgares, misturando tintas e agua e enchendo as garrafas com essas “poções mágicas”. Timo e David começaram a passar muito tempo a fazer “poções mágicas” e a organizar o seu stock de garrafas e garrafinhas que foram encontrando em casa e na casa de familiares e amigos.

Passado uns tempos, aperceberam-se que as garrafas de bebidas alcoólicas também tinham formas interessantes, e começaram a colecioná-las.

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Descobriram que existiam imensos tipos de garrafas e de bebidas. Exploraram os cafés e bares aqui da zona para pedir que guardassem garrafas vazias, conversando com os empregados de balcão e os barkeepers, e adquirindo conhecimentos sobre bebidas alcoólicas e, mais tarde, cocktails. A coleção de garrafas vazias foi aumentando de dia para dia. Encomendamos um livro de receitas de cocktails sem álcool e eles passaram a fazer cocktails.

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Aprenderam os nomes de bebidas incontáveis, seus ingredientes, origem, forma de fabrico, grau de álcool, em que ocasião se bebia essa bebida, em que cocktails se misturava, que pratos acompanhava. O Timo especializou-se mesmo em saber de cor tudo sobre bebidas alcoólicas que se pode imaginar, chegando ao ponto de impressionar os barmen profissionais com os quais conversava! E a coleção foi aumentando, ocupando agora uma antiga adega na cave da nossa casa, que estava esquecida e cheia de tralha velha.Os meninos arrumaram e limparam-na e é agora a sua “taberna”, o local mais frequentado pelas crianças que vem cá a casa, um verdadeiro santuário de garrafas vazias! Não, vazias não, pois os meninos inventaram uma forma de fazer parecer que as garrafas contêm o líquido original: misturando corantes alimentares com água até obterem a tonalidade exata da bebida original!16128026_10211939772559923_1492205480_n

No verão, fizemos sumo de uva que conservámos em garrafas cujos rótulos foram feitos pelos meninos, que também arranjaram uma maquina de caricas para selar as garrafas. Com um alambique caseiro, feito duma panela, dum balde e dum tubo de plástico, os meninos realizaram o processo de destilação.

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Muitos amigos ficaram fascinados com a coleção de garrafas e começaram a colecionar também, de modo a que o Timo e o David fazem grandes trocas e negócios de garrafas com os amigos.

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A descrição deste “passatempo” poderia continuar, pois ainda há muita coisa para contar, mas o essencial está claro: o Timo e o David exploram um interesse em liberdade e aprendem imenso, que, no entanto, nunca irá ser contabilizado, controlado ou avaliado. Nunca na vida um professor se lembraria de deixar dois miúdos manusear centenas de garrafas de vidro, estudar bebidas alcoólicas ou decorar ingredientes de bebidas e castas de vinhos.  Porém, é exactamente isto que interessa aos meninos, e é exactamente através da exploração desta paixão, até à exaustão e sem intromissão invasiva de adultos, que eles adquirem um leque variadíssimo de competências e conhecimentos, muito para além da simples garrafa de vidro. Os meus meninos têm conhecimento dos malefícios do álcool e tenho toda a certeza e confiança, que eles nunca provam qualquer resto de bebida que possa ficar nas garrafas.

E é isso que julgo relevante: saber e confiar que cada criança se desenvolve de acordo com processos internos e únicos; e que nos compete a nós, adultos, proteger as crianças dos pedagogos que transformam qualquer paixão em “matéria” e destroem assim a criatividade e a fantasia, canalizando qualquer situação natural da vida para um fim definitivo, previsível, contabilizável, através de um processo linear pré-fabricado.

Não me interessa se os meus filhos aprenderam competências que lhes poderão ser úteis no futuro mercado de trabalho. Basta me olhar-lhes nos olhos brilhantes, cheios de entusiasmo e alegria, e sentir que eles vivem com intensidade e paixão e a partir das suas próprias motivações.