O “primeiro dia de escola” dos unschoolers!

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Regresso às aulas ou a continuação da bela vida livre

Nos últimos dias começaram as aulas. Grande maioria das crianças deixou a relativa liberdade das férias, de ter poucas atividades agendadas e avaliadas por adultos, de poder estar por vezes na natureza ou ao até brincar ao ar livre. A partir de agora, recomeça a roda do hamster para os pequenos, na qual são obrigados e condicionados a participar, a demonstrar sua performance, a cumprir rotinas e espectativas de outrem, a verem sua vida controlada e organizada por entidades externas…

Depois há algumas crianças, para as quais hoje foi só mais um dia de muitos, como uma pérola num fio de pérolas brilhantes; mais um dia de auto- domínio e soberania, de ar puro, alimentos ricos, amizades e cooperação profunda, conflitos reais, aprendizagens intensas e duradouras, emoções fortes. São os unschoolers de Portugal, uma comunidade crescente e diversificada. Os meus filhos também fazem parte desta gente que decide gerir a sua própria vida e seguir de acordo com as próprias necessidades e motivações, não deixando o hábito, o materialismo, os preconceitos ou a pressão social invadir a privacidade sagrada das suas vidas.

E porque muita gente não imagina o que um unschooler faz no primeiro dia de aulas (ou nos seus dias, em geral), aqui fica um relato do nosso dia de hoje- 13 de Setembro de 2017.

Timo (10), David (7) e Svenya (2) acordaram antes das 7h, como de costume. Sem despertador, stress ou pressa, mas porque tinham dormido tudo e queriam começar um novo dia! Ligaram as musicas preferidas, deitaram-se nas almofadas do quarto de brincar, a ler, folhear revistas, desenhar, acordando lentamente para o dia.

O pequeno-almoço foi tomado em família, com pão feito pelo pai e tomate da horta, na presença do pai que hoje tinha o dia de trabalhar no home-office. Depois de nos termos preparado nas calmas, vestindo, penteando, lavando e conversando, saí com os 3 para o sol matinal do nosso quintal. Pouco tempo depois, foram aparecendo as outras crianças que habitam na nossa casa com os seus pais: 4 no apartamento do sótão, mais 3 na casinha à frente da nossa. Iniciaram-se imediatamente conversas alegres, ideias, planos e os rapazes decidiram andar de bicicleta na rua, enquanto ainda estava fresquinho.

Eles têm uns jogos muito elaborados que continuam todos os dias, e um deles consiste em andar de bicicleta, cada um com um determinado papel (polícia, ladrão, juiz, mecânico, etc.) e com um enredo complexo que vai sendo modificado cada dia. Assim foram: 5 rapazes, o Timo de 10 anos mais velho, o G. de 4 anos, o mais novo, e entre eles o M. de 6, o David de 7 e o J. de 9. Entretanto, a E. desceu e leu uma história às crianças mais pequenas e eu tomei um café ao sol e aproveitei para fazer alguns trabalhos domésticos.

As meninas pequenas entraram numa brincadeira de cozinhar e dar comida a bonecas, e levaram mais de uma hora nessa brincadeira. Nada de alimentos de plástico num faz-de-conta artificial: elas cozinharam com arroz verdadeiro, água, areia, folhas… No fim, as galinhas comeram os restos!

Entretanto, rompeu-se a corrente da bicicleta do Timo, e ele e o seu amigo trataram de a arranjar. Conseguiram desmontar uma roda, desenrolar a corrente dobrada e colocar tudo no sítio, e só precisaram ajuda de um adulto para a fase final.

 Durante toda a manhã, cada criança colhia livremente uvas, figos e maçãs no quintal e comia onde e como lhe apetecia. Apareceu a tia dos meus filhos, minha irmã. Houve conversas animadas e um picnic de tomate cherry que ela trouxe da sua horta. Os adultos conversaram, iam ajudando as crianças e fazendo seus trabalhos.

Cada família tomou o almoço na sua casa, refeições preparadas pelos pais com atenção e carinho. Depois, sesta para os mais pequenos, adormecendo aconchegados às mamãs, nas suas camas conhecidas.

O Timo e o David ficaram no seu quarto a jogar jogos de tabuleiro e cartas, quando chegou o carteiro com uma encomenda para o Timo. Tínhamos lhe comprado um kit para criação de triops, uns pequenos crustáceos que ele cria a partir de ovos minúsculos, num aquário de plástico. Seguiram-se momentos de altas emoções, porque o Timo estava muito feliz por ter recebido a prenda, enquanto que o David estava chateado por não ter recebido nada. Não recebeu, porque não tem o mesmo entusiasmo por Triops que o irmão, e recebe as suas prendas de acordo com as suas próprias necessidades e interesses. Houve gritos, portas a bater, choro, fúria. Depois, eu chateada porque com isto tudo, acordou a Svenya da sua sesta, assustada e sem ter dormido o suficiente. Enquanto fui levantar e acalmá-la, os irmãos conseguiram resolver o conflito: David percebeu que não deveria estragar a alegria do Timo, e o Timo propôs, de auto-iniciativa, oferecer o seu kit antigo ao David e partilhar os ovos de Triops que tinham chegado. Assim fizeram, e prepararam em paz os seus aquários para iniciar uma nova criação.

Eu dei um lanche à Svenya, ajudei os meninos com a preparação dos termómetros para os aquários e depois voltamos para o quintal, onde estavam todos os outros habitantes da casa; a brincar, ler, conversar.

Logo que os meus meninos apareceram, juntaram-se todos os mais velhos para seguirem para a “taberna”- um local de culto de Timo e David, muito apreciado por todas as crianças que por cá passam. É um pequeno espaço na nossa garagem, onde o proprietário anterior da casa tinha uma espécie de adega. Timo e David são grandes colecionadores, e há mais de um ano colecionam garrafas, em particular garrafas de bebidas alcoólicas, com formatos especiais. Na sua “taberna”- como lhe chamam, já têm centenas de garrafas, quase todas cheias de um líquido da mesma cor que a bebida original, misturado por eles a partir de corantes alimentares e água. Nós na família não bebemos, mas toda a gente dos cafés e bares nos arredores guarda garrafas vazias especiais para a coleção dos meus meninos! Os jogos aqui na taberna consistem em organizar o stock de garrafas, misturar cores para encher as garrafas com líquidos da cor original, trocar garrafas, inventar cocktails (não para beber, pois consistem em água e tintas!). Mais uma vez, há umas brincadeiras bastante elaboradas que tem continuação, semanas a fio: há centenas de caricas que representam dinheiro e que servem de base para trocas, empréstimos e outras atividades…

Enquanto eles estiveram na sua “taberna”, nós adultos juntámo-nos em volta da nossa mesa de jardim, petiscando, conversando, debatendo ideias. Lemos livros para as crianças que aparecem, em alemão, português ou inglês, ajudamos se nos pedem, e relaxamos alegremente em boa companhia. As crianças pediram mais lanches, cada família trouxe qualquer coisa, partilharam-se amendoins, azeitonas, pão caseiro, patés vegetarianos, bebidas vegetais. Todas as crianças, mesmo as mais pequenas, comem pela própria mão de tudo que desejam. O G. encontrou uma cobra morta que é analisada; a A. salvou uma formiga do tanque; deram comida ao gato, brincaram com os cachorros da vizinha, viram se as galinhas puseram ovos.

Mais uma vez, as crianças correram para as bicicletas e brincaram na rua, felizmente pouco movimentada. Todos os vizinhos apreciam que haja tantas crianças na rua, e conduzem aqui com muito cuidado.

Anoiteceu. Cada família recolheu-se na sua casa. Nós jantámos em conjunto, uma bela sopa de abóbora, proveniente da horta de amigos aqui perto onde todas as semanas vamos, com as crianças, comprar um cabaz de legumes, biológico.

Enquanto eu arrumei a cozinha, o Timo andava à volta dos seus Triops, ajustando o termómetro e a luz, verificando a areia e a humidade, lendo mais informações sobre os crustáceos. Svenya brincou com o pai no quarto e o David preparou um jogo de cartas para jogar comigo, na mesa da cozinha. Joguei com ele, enquanto conversámos sobre o dia e sobre os números das cartas (que vão até 200- é um jogo de cartas inventado por ele). Depois, ele tomou banho na banheira, junto com a Svenya. Um banho relaxante, quentinho, sem pressas. Eles adoram tomar banho juntos e brincar na água. A seguir, foi a vez do Timo, de tomar banho e preparar-se para a noite, e o pai leu uma história na cama. David adormeceu abraçado ao pai, e o Timo deitou-se para ler mais um bom bocado. Eu coloquei a Svenya na Manduca e saí para o quintal, para arrumar coisas, estender roupa, ver as estrelas. Ela adormeceu entretanto, aconchegada a mim.

Agora, quase meia-noite, está tudo em silêncio. Apenas o Timo continua lendo um dos dez livros, que todas as semanas vamos buscar à biblioteca local. Quando ele estiver cansado, irá desligar a luz e dormir. Eu estou aqui, refletindo sobre o nosso dia, a nossa vida. Não é a única forma nem a melhor opção para todas as pessoas, não é fácil e divertido a cada momento. Mas- para nós- é a forma de vida mais gratificante e intensa.

Estou cansada, mas um cansaço que me dá satisfação e conforto, um cansaço de um dia cheio, pleno, vibrante.

Como será amanhã? Ainda não sabemos. Talvez iremos passear na floresta, respirar o ar resinoso, apanhar pinhas para o inverno e observar as crianças a desenvolver outra brincadeira que já tem enredo complexo e continuidade há semanas: cada um constrói o seu “reino” e sua “loja” com ramos e pedras, e há vendas e trocas e bandeiras e regras e acordos…

Ou talvez iremos ao rio aqui perto, onde há outro jogo entusiasmante, em que as crianças constroem diques e lagos com areia e água e inventaram um material chamado “peste” que tem de correr dum sítio para outro, em determinadas condições e com a ajuda de todos os participantes…

Ou nada disso, faremos outra coisa que nos apetecer. Somos soberanos da a nossa vida, do nosso tempo.  O que é que as crianças aprenderam hoje? Não me interessa analisar e quantificar, nem resumir a imensidão da vida em matérias e currículos. Não me apetece dissecar as tantas atividades entusiasmantes, as conversas, leituras, os passeios, a conexão emocional, a intensidade dos conflitos, a paz das soluções…

Todas as pessoas, crianças e adultos, aprenderam hoje e todos os dias, disso tenho a certeza!