A criatividade é sagrada

Um dos (muitos) conceitos mal-interpretados e deturpados na educação atual é, na minha opinião, o conceito de criatividade.

Quase todos os pais consideram seus filhos criativos e nos infantários e nas escolas muito se fala sobre “a importância da criatividade”.

Mas o que é essa criatividade tão falada e que todos dizem ter?  Sim, é verdade que todos nascemos com um potencial criativo imenso, é uma das características que nos distingue dos outros animais. Podemos criar algo a partir da nossa imaginação, algo novo e nunca antes visto ou feito. É isso que define criatividade: a capacidade de CRIAR pensamentos, objetos, percursos, soluções- desde a nossa imaginação, únicos, singulares, não copiados! E é aqui também que o conceito é mais mal-interpretado: a maioria das pessoas considera que alguém que PRODUZ é criativo. Confunde-se PRODUTIVIDADE com CRIATIVIDADE; isso já nas crianças mais pequenas.

Aquela mãe que considera seu filho criativo, porque ele brinca ao spider-man ou o pai que se orgulha das produções de desenhos da sua filha (que consistem em imagens estereotipadas- casa/sol/arvore/arco-iris/pessoa/cão, etc.) estão a banalizar o essencial. Não reconhecem que a mente da criança já está povoada de imagens pré-concebidas, deixando pouco lugar para o desenvolvimento das próprias ideias. Parece-me que isso é grave, pois veda-nos a capacidade de perceber o grau de manipulação que os pensamentos e as ideias dos nossos filhos sofrem… e por isso, alegramo-nos- enganados- com a mediocridade, em vez de aspirarmos libertar a grandiosidade!

Acreditamos que as bricolages a partir de instruções, produtos para orgulhar os pais e colar na porta do frigorífico, ou as brincadeiras baseadas em desenhos do Canal Panda, são o supra-sumo da criatividade infantil… Assim, desperdiçamos a oportunidade de proporcionar aos nossos filhos momentos de inspiração e desenvolvimento do potencial criativo.

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Será que ela é a Elsa do Frozen, à procura do “príncipe encantado”? Nada disso! É um avô velho a observar a estrelas com o seu telescópio!

Mas como podemos manter a pureza do pensamento original e escolher influências que estimulam, em vez de estupidificarem? Num mundo tão cheio de imagens fáceis e ideias fast-food, é difícil, mas é o nosso dever salvaguardar a mente criativa das nossas crianças!

Tenho algumas ideias…Considero essencial escolher muito bem o input para as crianças. Assim, penso que é importante apresentar- principalmente nos primeiros 3, 4 ou 5 anos de vida- conteúdos (livro/filmes/música/brinquedos) que inspiram pela sua complexidade, componente estética, artística, pelo potencial de originar pensamentos novos e espicaçar a curiosidade. Para além disso, é imprescindível proporcionar muito, muito tempo livre e brincadeiras sem invasão, conselho ou comando adulto, de preferência na natureza.

No nosso caso por exemplo, não há filmes da Disney nem Canal Panda ou parecidos, não há musicas infantis “pimba”, livrinhos infantilizantes, nem brinquedos de plástico da ToysRus. Os filmes que as crianças vêm têm um enredo complexo e personagens com profundidade psicológica, vocabulário rico e imagens estéticas; os livros, são geralmente para crianças mais velhas do que eles são no momento, com conteúdos de qualidade literária; os brinquedos, são os que oferecem a possibilidade de serem modificados e versáteis; a música, variável e abrangente, desde obras clássicas a musica do mundo ou música infantil artística. Há tanta coisa estimulante e tantas possibilidades nas bibliotecas públicas, nas lojas de segunda mão, na internet, na natureza- que não é aceitável deixarmos as nossas crianças à mercê de input preconcebido, consumista e superficial que abafa a criatividade, numa idade em que absorvem tudo e constroem a sua mundivisão.