Reflexão filosófica sobre sociedade, sustentabilidade e educação

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Convido hoje para uma reflexão filosófica sobre sociedade, sustentabilidade e educação.

Numa meta-análise, pretendo desconstruir as ideias consideradas alternativas no nosso mundo ocidental moderno, e acusá-las de superficiais e indefensáveis se não se basearem na abolição da educação como a conhecemos. A minha acusação não vai no sentido de uma sentença, mas no sentido de abrir portas para um dialogo fundamentado, assim como um convite para uma reflexão fora das paredes da caixa moderna, comercializada e mercantilista.

Parto do princípio feliz, de que uma grande parte da população já se começou a aperceber das relações entre a crise civilizacional e os conflitos ecológicos, militares e democráticos do nosso tempo. Parte relevante da população europeia consegue perceber a relação entre o consumo desenfreado e os desastres ecológicos; entre a corrupção política e as desigualdades sociais; entre a agricultura e pecuária industrial e o descalabre alimentar e ecológico, etc. Alguns conseguem desmascarar discursos políticos e corporativos e interligar o bem-estar do chamado primeiro mundo com a crise humana nos países explorados do chamado “terceiro mundo”; emergiu, nos últimos anos, um movimento de gente que se auto- denomina de “alternativos”, que procura diminuir a sua pegada ecológica, criar comunidades mais pacíficas, abolir o patriarcado restante e (ainda) muito embrenhado. Um sem-fim de iniciativas emancipatórias louváveis…

Porém, no que toca à analise crítica da educação, muitos dos pensadores, “alternativos” e educadores, não se aproximam (nem se atrevem). Quando se levantam questões sobre  transformação e libertação da educação, é de estranhar quão depressa esvanece o sentido crítico e a capacidade de compreensão teórica e de empatia com sofrimentos e espectativas subjetivas.

Mas haverá possibilidade de uma modificação do sistema disfuncional atual, em direção a uma sociedade mais justa, mais empática, mais culta e saudável (física- e emocionalmente) se não nos atrevermos abolir uma das instituições com maior responsabilidade pela perpetuação do estado das coisas- a escola??

O que nos vale lutar por democracia, se não concedemos direitos democráticos à camada mais relevante para o futuro do mundo- a crianças e jovens?

O que nos vale defender comunidades pacíficas, transformação social, empenho político, civismo, empatia, saúde mental- se submetemos crianças e jovens à maior violência subtil possível: a obrigatoriedade de passar sua infância e juventude sob jugo de adultos omnipotentes que se consideram no direito de povoar mentes inofensivas com assuntos pré-determinados? Que se consideram no direito de invadir a privacidade e avaliar e controlar crianças e jovens, apenas porque estas têm menos anos de idade?

Se até ao século XVIII a Igreja dominava a mente e o comportamento das sociedades, no início do seculo XIX deu-a libertação dos dogmas religiosos, o que se traduziu numa gradual mas definitiva perda de poder e influência da Igreja. Muitos revolucionários de outrora investiram esperanças e forças no desenvolvimento da instituição Escola, como ferramenta para o progresso e para a libertação dos dogmas religiosos petrificados. No entanto, o que aconteceu foi uma lenta transferência de poder da Igreja, para poder da Escola.

Se ousarmos comparar, ainda hoje a instituição Escola se baseia em estruturas que antes fundamentavam a Igreja:

– o dogma religioso foi substituído pelo dogma pedagógico, cuja mundivisão permeia toda a sociedade;

– As instituições (tantos a Igreja como a Escola) parecem ser inquestionáveis; vão surgindo diferentes reformas que apenas tocam ao de leve nas margens do problema, sendo variações do mesmo princípio; as modernizações e modificações da Escola servem apenas à melhor adaptação à sociedade em mudança, mas não à mudança das estruturas e bases educacionais.

– Tanto a Igreja como a Educação (transmitida pela Instituição Escola e embrenhada no relacionamento familiar) prevê a subjugação da personalidade, a anulação da autodeterminação e a adaptação total a um quadro rígido de comportamentos e caminhos de vida adaptados à sociedade mercantilista e corporativa. Quem ousa recusar o mindset impingido, é ameaçado com exclusão (no Além ou na vida presente) … Essa ameaça, sempre latente, é uma das ferramentas de controlo de comportamento.

– O requisito das estruturas dogmáticas mencionadas (Igreja e Escola) consiste na criação e manutenção de pessoas que preenchem lugares pré-definidas numa escala hierárquica: em cima, o Padre ou o Professor, em baixo, o Crente ou o Aluno. Tanto Padre como Professor agem na convicção de saber melhor o que o inferior hierárquico necessita, quer e deseja.

A comparação entre Igreja e Escola tem como objetivo demonstrar a base ideológica que impregna ambas as instituições e que é inaceitável para quem pretenda viver uma vida íntegra e possibilitá-la às crianças e jovens que partilham a sua vida.

Se estamos comprometidos com valores de ética como a Liberdade e a Dignidade do Ser Humano, como nos é possível consentir a imposição, o paternalismo e a desautorização de crianças e jovens?! E como podemos consentir que a manipulação pedagógica e a violação da mente humana através da imposição de conteúdos externos arbitrários aconteca nos moldes de um sistema estatal monopolista, apoiado e pago por nós, através de impostos e outras contribuições humanas e materiais?

Não será a Escola enquanto Instituição profundamente obsoleta e, em termos jurídico-formais, anti- democrática?

Partindo de uma imagem negativa e pessimista do Ser Humano, pretende-se justificar a imposição de “conhecimento” através da perspetiva de lacunas e deficiências: a criança, incapaz, ignorante e incompetente terá de ser moldada através do Pedagogo (o ser superior, capacitado para formar o barro bruto do aluno); essa modelação acontece através de métodos manipulativo-motivacionais compensatórios que visam a aquisição de “conhecimentos” e competências que possibilitarão a inserção futura no mundo corporativo, de consumo e exploração.

O processo é denominado “Educação” e assenta em duas bases: num conhecimento teórico pré-definido por instâncias externas que será necessário para o bom funcionamento da economia e para a manutenção da sociedade como a conhecemos; e na atividade de formação, modificação e manipulação de comportamento, para moldar a personalidade.

Ambos são prática e objetivo da Escola.

Marcante para o conceito atual de educação é a ideia de um desenvolvimento humano e intelectual que se processa por uma série de passos seguidos, degraus construídos uns em cima dos outros que elevam o aluno cada vez mais, culminando numa meta. O conhecimento é mecânico, mesurável, avaliável, unidimensional, monocausal; é fixado no hemisfério esquerdo do cérebro, no intelecto, no masculino, no dominante, que eufemisticamente se diz de “objetivo e racional”!

Que alternativas reais? Que possibilidades de despedir um sistema marcadamente anti-humano e viabilizar a emergência de oportunidades éticas e adequadas ao desenvolvimento complexo e holístico do ser Humano?

Em primeiro lugar está a coragem de enfrentar medos resultantes de hábitos e manipulações; depois, vem a necessidade de informação profunda: sobre desenvolvimento infantil, neurociência e saúde mental, sobre economia justa, política, sociedade, antropologia, biologia; a confrontação pessoal com experiências passadas e traumas reprimidos.

Logo de imediato vem o corte radical com a Instituição Escola e toda a mundivisão que veicula.

O processo de desescolarização (conceito que define a fase em que o ser humano passa de um estado de escolarizado, com toda a ideologia incutida, comportamentos embrenhados e atividades pré-definidas, para um estado de libertação interna) é um processo longo e complexo, que abre possibilidades para uma vida inimaginável. De repente, apercebemo-nos que somos soberanos do nosso tempo, do nosso corpo, da nossa mente; descobrimos interesses, talentos e paixões que nunca antes conhecíamos e aprofundamo-los de formas desconhecidas e individuais; empenhamo-nos na nossa vida com motivação intrínseca, aprendendo tudo que necessitamos, da forma e durante o tempo que for melhor para cada um de nós. Ressuscitamos. Sentimos vitalidade e energia para ultrapassar os desafios e encontrar o nosso caminho: único, exclusivo, original;

Acontece a verdadeira reforma, aquela que pseudo-alternativos tanto propagam mas que por lá nunca acontece: a abolição radical de estruturas educativas monopolistas e a criação de percursos individuais que cimentam a auto-determinação e a dignidade humana.