Como aprendem as crianças que não vão à escola?

20181123_084812

Esta é, sem dúvida, uma das perguntas mais frequentes que as pessoas nos colocam quando descobrem que as crianças cá de casa nem vão à escola, nem têm aulas em casa… (A segunda pergunta mais frequente é a da socialização: mantém se o preconceito de que as crianças que não vão à escola estão fechadas em casa sem conhecer pessoas, nem interagir com o mundo…).

Portanto, a ideia subjacente no nosso mundo ocidental moderno é que a criança precisa de ser sujeita a um conjunto de estratégias do arsenal pedagógico, elaboradas e dirigidas por um adulto, às quais, eufemisticamente, se dá o nome de “ensinar”. A criança é um sujeito passivo, recetor de ensinamentos alheios, que interiorizará; a interiorização dos ensinamentos é medida e avaliada por entidades externas, adultos, e assim é suposto acontecer o processo de “aprendizagem”. Felizmente há cada vez mais informação, desde da área da neurobiologia, ao desenvolvimento infantil, à psicologia e antropologia, de que o sistema educativo está assente em premissas erradas e muito prejudiciais, pelo facto simples de impedir a própria aprendizagem e até destruir a auto- determinação e a motivação. Algumas famílias como a nossa, profundamente desencantadas com as promessas do sistema educativo, optam por enveredar por um caminho diferente, que se inicia com um processo de desescolarização dos adultos. Este é um passo difícil, mas necessário, que representa uma quebra com a educação comum e os modelos de vida correntes e um repensar de aceções que parecem normais, por terem sido transmitidas dogmaticamente há algumas gerações. Durante o processo de desescolarização dos adultos, acontece a libertação das crianças; ou são retiradas da escola e muda toda a dinâmica familiar, mudam os relacionamentos e ganham mais intensidade e profundidade, ou então- como foi o caso da nossa família, as crianças nunca chegam a frequentar qualquer tipo de instituição (creche, infantário ou escola). As crianças que passaram pela educação institucional costumam ter mais dificuldade em encontrar o seu próprio caminho, por estarem habituadas a obedecer a ordens e horários, a verem o seu tempo ocupado e dirigido por adultos e as suas mentes atafulhadas de informação descontextualizada, mas as crianças livres desde nascença, e envoltas num ambiente familiar de constância, apoio e “tender, loving care”, demonstram-nos desde cedo que todas as premissas sobre o famoso “processo ensino-aprendizagem” estão erradas e que a mente humana é capaz de bem mais do que se imagina…

IMG_5806

Posto isto, passo a descrever uma pequena parte dos processos de aprendizagem que aconteceu no último ano com as crianças cá de casa, com o intuito de responder à pergunta que deu azo a este texto: Como é que aprendem as crianças que não vão à escola?As crianças livres de imposições externas arbitrárias aprendem por motivação intrínseca e de forma tão natural, que muitas vezes nem notamos. Quando se deixa uma criança em paz, num ambiente de segurança emocional e imersa em materiais e experiências estimulantes, acontece o que sempre aconteceu e o que é fundamental para o bom desenvolvimento infantil: a criança brinca, faz experiências, imerge em atividades sensoriais e cognitivas e foca-se horas a fio nos seus interesses, resultantes de processos internos individuais, não dirigíveis nem mensuráveis. Cada criança, tal como é única e original no seu aspeto físico, também é única no modo como, e o quê, aprende.

Aqui em casa temos um menino de 11 anos que desde sempre foi um grande “cientista”: explora tudo minuciosamente, faz inúmeras experiências originais (não as chamadas experiências científicas que vêm numa caixa da Clementoni!) e é apaixonado pela vida: a vida das plantas e dos animais, dos seres vivos em geral. Há tempos iniciou a criação de Triops, uns seres minúsculos que se desenvolvem na água, a determinadas condições, e mantiveram praticamente o mesmo aspeto desde o tempo dos dinossauros. Após ter criados alguns, pesquisado, estudado, analisado tudo sobre esses bichinhos, o T. descobriu que eles poderiam ser alimento para peixes e, em seguida, decidiu criar os peixes. Oferecemos-lhe um pequeno aquário, que ele instalou e encheu de vários peixes, que logo tiveram crias; pesquisou sobre peixes, aquarística, landscaping de aquários, visitou pessoas que tinham aquários, conversou com donos de lojas de aquários, observou peixes em rios e mares, estudou as plantas aquáticas, plantou inúmeras plantas e negociou outro aquário, bastante maior, que arranjou através do OLX. Instalou também esse aquário, aprendeu a mexer nos filtros, nas bombas, mede regularmente o PH, a dureza, a temperatura, etc. da água, plantou mais plantas, resolveu imensos problemas como doenças que atacaram os peixes, filtros que deixaram de funcionar, luzes que fundiram, eletricidade que deixou de dar, etc. Emocionou-se com o crescimento e a variedade das plantas aquáticas e começou a recolher plantas em lagos e charcos que plantava num lago no jardim, que entretanto construiu; lá, fez um filtro de carvão, plantou as margens, colocou tartarugas, apanhou peixes e cobras do rio para o seu lago, observou o desenvolvimento das rãs; paralelamente a conhecer imensos peixes pelo nome científico e seus hábitos e habitats, também há anos que ele se interessa por aves e observa e estuda regularmente pássaros; também há anos que fotografa aves, e agora passou a interessar-se por macro fotografia, para poder captar imagens de pormenores das suas plantas, dos peixes, das tartarugas. Entretanto, arranjou uma incubadora emprestada e começou por chocar galinhas; construiu gaiolas e cercas, aprofundando os conhecimentos de carpintaria; estudou as raças de galinhas, aviformes no geral, e apaixonou-se por codornizes, pelo que colocou também ovos de codorniz na incubadora. Após terem nascido os pintainhos todos, o T. teve que ser mãe-galinha e veterinário ao mesmo tempo, pois alguns ficaram doentes ou nasceram com deficiências. Houve muito trabalho e investigação, até que todos os pintainhos estivessem bem e capazes de viver autónomos na capoeira (também construída por ele). De momento, o T. cuida de peixes, tartarugas, codornizes, patos e galinhas de diversas raças, e simultaneamente está a investigar sobre plantas. Após um grande incêndio que houve no ano passado na nossa zona, nós (e muitas outras pessoas) recebemos árvores pequenas da junta de freguesia, com o intuito de as cuidar e plantar mais tarde na área ardida. O T. assumiu logo a responsabilidade por estas árvores, começando por interessar-se por árvores em geral e acabando por investigar a fundo sobre árvores: seus habitats, propagação, tipo de solos, ciclo de vida, etc. Colheu sementes e bolotas, aprendeu a fazer estacas e enxertos e construiu o seu pequeno “horto botânico”, no qual, com o passar do tempo, juntou inúmeras espécies de plantas que cuida, multiplica, transplanta e estuda. De momento, especializou-se em palmeiras e está a fazer experiências com reprodução através de sementes que possuem dormência. Paralelamente o T., em conjunto com amigos ou família, visita jardins botânicos, museus naturais, hortos, viveiros, quintas, exposições e outras atividades onde ele encontra estímulos para os seus interesses. Pratica pintura, anda de bicicleta, joga futebol, lê poesia, ficção e os manuais universitários da licenciatura em biologia da sua tia, e mais uma imensidão de atividades escolhidas e geridas por ele, sem qualquer intromissão adulta, para além do apoio incondicional consistente da nossa parte.

O seu irmão, D. de 8 anos, tem um percurso completamente diferente mas não menos significativo em termos de auto-gestão e motivação intrínseca. O D. tem, desde sempre, uma personalidade virada para as atividades sinestésicas e interpessoais; desde cedo aprendeu, também de forma autónoma, a andar de bicicleta, de patins, nadar, jogar futebol, trepar e escalar alturas vertiginosas. Desde os 3 anos que passava até 8 horas diárias a montar construções complexas com Lego, seguindo instruções avançadas sem saber ler, apenas concentrado nas imagens; depois, teve uma fase de cerca de um ano em que estava obcecado em organizar e jogar com cartas: andava sempre com um ou dois baralhos de cartas nos bolsos, inventava jogos, jogava com regras, inovava, criava jogos diferentes; tornou-se  especialista em jogos de cartas cá em casa, ganhava todas as partidas, qualquer jogo

que fosse. Focou-se em dois ou três jogos que era capaz de jogar horas a fio, caso arranjasse quem tivesse paciência de o acompanhar! Paralelamente, começou a jogar futebol todos os dias com um grupinho de amigos de diversas idades e nacionalidades. Ficou entusiasmadíssimo com o futebol, tendo aprendido rapidamente as regras e jogando futebol muitas horas por semana. Através de um livro sobre a história do futebol, deu os primeiros passos na aprendizagem da leitura, e aprofundou conhecimentos acerca de clubes, jogadores, competições… Entretanto desenvolveu competências na bicicleta e conheceu o ciclismo profissional; apaixonou-se pelo ciclismo e segue todas as competições na comunicação social. Conhece inúmeros tipos de bicicletas, inventou um guiador para a sua bicicleta que fosse parecido aos dos ciclistas profissionais, sabe os nomes, nacionalidades, percursos e patrocinadores de dezenas de ciclistas, anda de bicicleta todos os dias, aprendeu vários truques e manobras especiais e está a poupar para uma bicicleta especial. Aprendeu a ler fluentemente com as revistas da Bikes World, que coleciona (uma revista especializada para o ciclismo). Paralelamente, acompanha os interesses do irmão por plantas e tem um fascínio muito próprio por plantas suculentas; tem dezenas de cactos e outras suculentas que cuida, multiplica e transplanta, e cria jardins de cactos em vasos. Tem, ainda uma paixão por banda desenhada, e particular os livros do TinTin, que conhece de trás para a frente e das quais retira inúmeras citações e piadas que ele aplica no momento certo na vida real, com o seu humor muito próprio… Para além do descrito, o D. desenha e pinta, escreve histórias, faz cálculos de cabeça, tem varias coleções, cria e inventa, brinca e explora o seu mundo com todos os sentidos e tem alguns amigos muito especiais com os quais adora estar, de preferência todos os dias!

20181125_101152

A irmã pequena, de 3 anos, também tem o seu percurso de aprendizagem completamente original, contradizendotodas as teorias de que as crianças pequenas têm uma capacidade de concentração muito curta; aos 2 anos, ao ouvir uma história da Astrid Lindgren que eu estava a ler ao irmão, ficou completamente fascinada e pedia semanas a fio para ouvir a história, que retrata a vida de famílias suecas nos anos 20 do século passado. Embora o livro está indicado a partir dos 7 anos e é bastante descritivo, a S. nunca se cansou de ouvir e imaginar a vida das famílias, de recriar as personagens e os acontecimentos nas suas brincadeiras. Nas imagens do livro vêm se crianças vestidas à maneira antiga tradicional sueca, e a S. passou a vestir-se assim também: apenas aceitava roupa com padrões e cortes semelhantes às da história; queria fazer refeições das receitas suecas descritas no livro, usava duas tranças como as meninas do livro, retirava citações que aplicava nos momentos da vida real. Paralelamente, também desde os 20 ou 24 meses, ela tem um grande interesse em flores; repara em todas as flores, desde as mais singelas e aparentemente insignificantes, às mais vistosas, sabe os seus nomes, prensa-as para as colar no seu herbário, pinta flores, usa vestidos com flores. As suas visitas preferidas são para jardins botânicos, onde ela passa momentos de êxtase a apreciar os canteiros floridos. Ela observa durante muito tempo os guias de flores e procura perceber as diferenças e semelhanças entre as plantas. De momento, sendo inverno e passando mais tempo dentro de casa, a S. dedica se horas a fio a construir casas e paisagens de Playmobil. Brinca com as figuras, mas o interesse principal consiste em “criar espaços e fazer paisagens”, como ela diz. Com uma motricidade fina muito desenvolvida, organiza as peças minúsculas de Playmobil de forma a arranjar pequenos mundos com todos os pormenores. Paralelamente, ela adora ouvir música, principalmente canto clássico e tradicional, que imita e canta frequentemente. Ela ouve histórias que eu ou os irmãos lhe leem, gosta muito de passear na natureza e brinca com amigos de diversas nacionalidades; este verão, ela decidiu que não usaria braçadeiras e aprenderia a mergulhar; insistiu diariamente até que aprendeu mesmo a mergulhar e a nadar debaixo de água, sem qualquer medo ou dificuldade…

Isto são aIMG_5796penas algumas das aprendizagens que aconteceram aqui na família nos últimos meses; paralelamente, há tanto mais que acontece, tanta gente que conhecemos, amigos que fizemos, desgostos e alegrias que passámos, viagens, passeios, concertos, visitas, exposições, tanto mundo que descobrimos em conjunto, mundos internos e externos que nos fazem crescer.

Haverá alguma resposta única à pergunta: “Mas como é que as crianças aprendem se não andam na escola?”

Não há respostas gerais, porque cada ser humano é um mundo de possibilidades, e ninguém conhece nem prevê os caminhos misteriosos do desenvolvimento humano. Só tenho a dizer: não empatem as crianças com regras arbitrárias, horários inflexíveis, pressão, currículos artificiais, avaliações insignificantes! Deixem-nas viver a vida em pleno e confiem que cada um, à sua própria maneira, se envolto num meio estimulante e de amor e apoio consistente, conseguirá desenvolver o seu potencial e chegar onde tem de chegar…

A nossa tarefa enquanto adultos não consiste em formatar e moldar as crianças, mas em tratar dos nossos próprios processos de transformação e amadurecimento, de modo a sermos os melhores modelos de orientação possíveis para as crianças que partilham a nossa vida.