Que cultura?!

ottodavid

Percorrendo a secção infantil de livrarias, as lojas de brinquedos, os cinemas, as festas de aniversário ou quaisquer eventos para crianças, cada vez mais me parece que as propostas culturais e recreativas para crianças são um verdadeiro atentado à inteligência…

O princípio subjacente é de que a criança é um ser inferior, incapaz de perceber coisas sérias, que precisa de objetos especiais, espaços próprios, para ela preparados por adultos e de um tratamento paternalista-benevolente- mas manipulador e controlador. Essa atitude inspira toda uma indústria em torno da criança, que produz livros, filmes, músicas e brinquedos virados para um público infantil tratado como meio-demente e incapaz. Com base na exploração da vulnerabilidade a estímulos, e da necessidade de orientação e input da criança, produzem-se livros, filmes, brinquedos, que são aberrações à estética e a todos os sentidos.

A comercialização da infância não conhece os limites do eticamente aceitável, do estético, da qualidade. Apostando nos estímulos fáceis e viciantes e na gratificação imediata, destrói-se à nascença o gosto, o sentido de qualidade, a capacidade de concentração, destrói se deliberadamente uma cultura secular, substituindo-a pela anti-cultura popular superficial, garrida e estereotipada à moda Disney…

Quem tem os filhos em instituições escolares à mercê de outrem, dificilmente conseguirá manter os limites saudáveis perante a invasão massiva do mundo comercial-pop. Já os unschoolers têm uma possibilidade valiosa de se afastar da comercialização da infância e de mostrar a riqueza e variedade cultural deste mundo.

As crianças que crescem imersas num ambiente cultural e natural estimulante e tem a possibilidade de o explorar de acordo com as suas motivações e ritmos individuais, envoltos em relações humanas de confiança, desde muito cedo apresentam interesses e capacidades consideradas fora do comum. Isto já se sabe desde as primeiras investigações de Marcelle Geber em 1956: a cientista viajou para África (Uganda e Kenia), com o objetivo de explorar o efeito da subnutrição em bebés e crianças. Em vez de encontrar crianças com grandes atrasos de desenvolvimento, a investigadora ficou surpreendida com o facto de bebés e crianças africanas apresentarem capacidades físicas e intelectuais muito avançadas, comparadas com as crianças europeias. Após mais investigação, a conclusão foi que o desenvolvimento avançado e aparentemente fora do comum se devia à vinculação segura, ao ambiente natural e cultural estimulante e à atitude respeitadora e confiante dos cuidadores africanos. A criança, desde bebé, era tratada como membro completo da sociedade, envolta em interação social igualitária e pacífica. Desde então, muita investigação tem sido feita na área da antropologia, neurobiologia, vinculação, desenvolvimento infantil, psicologia… e a conclusão mantém se a mesma, óbvia: uma criança que não é infantilizada, manipulada, controlada, pressionada- mantém uma capacidade inata e natural de se integrar no ambiente social e cultural em que vive. Não precisa de baby- talk (O bebé papa tudo! Olha o pãozinho e a carninha! Vai alí um pópo! Agora faz Ó-Ó!…) Não precisa de livrinhos sobre a princesinha que se porta bem na escola, ou o bombeiro que lava sempre os dentinhos; não precisa de músicas infantis-pimba ou filmes do Ruca e outros cabeçudos ridículos, não precisa de filmes e histórias com role-models exagerados, histéricos, psicóticos… (Não digo com isso que não haja filmes, banda desenhada, música infantil de qualidade! Mas essa não é comercial…)

Tudo o que faz parte do mundo natural e cultural é valioso e estimulante. Para qualquer pessoa, seja adulta ou criança. É inútil e até prejudicial expor a criança permanentemente a um ambiente físico e psicológico artificial e paternalista-condescendente.

Na minha experiência com os meus filhos, senti desde cedo uma aversão visceral à infantilização. Optei por mostrar o mundo, sem filtros cor de rosa à la Disney.

Vivo e venero a cultura literária, artística, musical, intelectual do nosso mundo e exponho os meus filhos a tudo que me é possível mostrar;

Como? Perguntam-me. Lês-lhes o Kafka em russo ou quê?!

Não é tanto assim, pois naturalmente temos que nos deixar guiar pelas capacidades e os interesses individuais da criança. Mas desde pequenos, leio livros complexos; lembro-me do meu filho mais velho, na altura com 5 anos, interessadíssimo no mundo submarino; deram-lhe uns livros infantis sobre a vida nos mares, etc. Mas o que ele gostou e devorou, foi um livro grosso, compacto, em inglês e letras pequeninas, chamado Our underwater world. Era um livro muito especializado na fauna e flora submarina, e ele mal falava inglês, mas decifrava aquilo com paixão e retirava tudo o que precisava!

À minha filha de quase quatro anos, já li grande parte da obra de Astrid Lindgren, três volumes da Casa na Pradaria, A fábrica de chocolate de Roald Dahl, O jardim Secreto de Frances Burton, grande parte da obra de autores famosos alemães como Michael Ende e Ottfried Preussler, lemos Peter Pan, Nils Holgersson e outros tantos livros sem imagens mas com uma capacidade imagética incrível. Aos meus 3 filhos de agora onze, oito e quatro anos, leio poesia clássica e moderna, ouvimos música tradicional de vários países, música clássica, moderna, jazz e ópera; visitamos exposições e museus que não são especificamente para crianças. Há dias fomos ver o museu de Franz Marck, na Alemanha, e a minha filha adorou ver os quadros modernistas. Infelizmente, eles eram as únicas crianças no museu…

Eles vibram nas visitas a jardins botânicos, observatórios de animais e exposições fotográficas e de pintura, e investigam qualquer charco, mato ou praia à procura de animais e plantas.

Frequentemente fazemos saídas em família, para conhecer o mundo natural à nossa volta, e as crianças observam, descobrem e identificam fauna e flora com a mesma certeza e paixão como nós adultos. Vimos filmes escolhidos a partir de critérios de estética e conteúdo e vamos a eventos culturais interessantes para todos e não talhados especialmente para crianças. As crianças manuseiam máquinas fotográficas e de filmar, serras, tesouras, tintas e todos os aparelhos e objetos de casa, não tendo objetos infantis específicos para eles. Eles participam em atividades e cursos sobre matérias que lhes interessam, desde pintura, fotografia, ornitologia ou olaria, onde muitas vezes estão no meio de adultos.

Não obstante, tem brinquedos e estão quase todos os dias com outras crianças. Não defendo qualquer tipo de adultização forçada ou até imposição académica! Nem confirmo que o nosso método é o único ou o melhor.

Apenas quero alertar para o potencial incrível em cada criança, que tão facilmente é destruído, inadvertidamente, ao seguirmos cegamente a corrente popular, superficial e comercial. Proporcionarmos experiências sensoriais complexas, input estético e de alta qualidade e honrarmos a cultura, a beleza e o intelecto- são presentes impagáveis que fazemos às crianças e que as nutrem profundamente pela vida fora…