A VULNERABILIDADE DOS RELACIONAMENTOS- ou apenas mais uma opinião sobre a Pandemia

fenny zebra

A atual pandemia mostra-nos de forma invulgar, quão fútil e volátil é o modo de vida atual.

Os pilares do mundo moderno: constante produtividade, consumo desenfreado de bens e pessoas e outsourcing- estão a ruir. Há poucas centenas de anos (nalguns países, apenas dezenas), os esforços humanos reduziram-se da esfera coletiva para a esfera individual, sendo valorizado o individualismo (muitas vezes um eufemismo para o egocentrismo consumista).

Se bem que o desenvolvimento individual e a realização pessoal são conquistas valiosas, estes conceitos foram diluídos por ideologias capitalistas que asseguram o funcionamento das corporações. A base para o rolar oleado da chamada roda do hamster é o outsourcing: a terceirização de todos os aspetos da vida, para que aquilo que resta possa produzir e vender.

Assim, é externalizada a produção de alimentos (quase ninguém produz os seus próprios alimentos, muitos até deixaram de confecionar grande parte dos alimentos), é externalizada a força de trabalho, são externalizadas as tarefas diárias ( alguém limpa por nós, alguém leva o nosso lixo para longe, alguém faz-nos o pão, alguém produz os nossos carros, alguém constrói os nossos móveis, alguém faz as nossas estradas, alguém produz os nossos computadores, alguém…) Esse alguém é anónimo e não tem relação nenhuma com o nosso quotidiano, a não ser que nos presta serviços em troca de um objeto simbólico: dinheiro.

Externalizamos o entretenimento (outrem produz o nosso entretenimento e nós tornamo-nos consumidores passivos: compramos eventos, compramos viagens, compramos experiências que nos provocam a adrenalina que falta no quotidiano, compramos programas de televisão ou jogos de computador…etc.); Externalizamos a nossa própria autorrepresentação (compramos produtos- roupas/acessórios/objetos) de determinadas marcas ou estilos para encaixarmos o nosso visual numa determinada tribo construída pela indústria da moda);

Tentamos, também externalizar os relacionamentos: a educação das crianças é entregue a terceiros, o tratamento de idosos é entregue a terceiros, o cuidado aos vulneráveis é entregue a terceiros, basicamente toda a esfera privada é permeável à terceirização e aberta à invasão comercial.

Isto funciona quando o mundo corre ao ritmo hiperativo aparentemente normal. Mas no momento em que há uma quebra, um desequilíbrio nas rodas dentadas, tudo desmorona.

Aquilo que poderia ser uma fonte de conforto, inspiração e aconchego (a nossa habitação) torna-se para muitos uma prisão. Uma prisão, porque nunca foi um local de recolhimento, mas sim, um dormitório para arranjarmos força para produzirmos e comprarmos a vida lá fora.

De repente, acontece algo que ainda há poucas gerações era completamente normal: as famílias têm que estar juntas! Pessoas de diversas idades, de repente estão juntas e têm de se aturar!

Torna-se visível a maior e- na minha opinião mais perigosa- falácia do mundo moderno: a tentativa de terceirizar os afetos.

Numa altura em que um bebe é entregue a terceiros na fase mais vulnerável para a criação do vínculo seguro- em que a instrução é totalmente entregue a profissionais- em que o entretenimento das crianças é assegurado por pares e muitas vezes pago- em que adultos e crianças pouco se encontram nas vivências reais- em que os casais representam mais um papel do que se envolvem em ligações de intimidade psicológica- em que os dias são divididos em secções de ocupação hiperativa… De repente, somos obrigados a desacelerar.

De repente, pais e filhos vêm se durante o dia! Não têm ninguém para os entreter! Não têm ninguém para as distrações fúteis, ninguém para ocupar o vazio interior que não está a ser preenchido por trabalhos infinitos… Casais tem de se ver durante todo o dia, têm de resolver problemas e conflitos, até falar uns com os outros! Relacionamentos que se reduziam a encontros fúteis, preenchidos por tarefas imensas e distrações, vêm se confrontados com nada mais do que eles próprios.

Esse confronto está a ser difícil. É um confronto com o facto de que, na verdade, não nos conhecemos uns aos outros; que, na verdade, não nos sabemos ocupar sozinhos ou melhor- não temos interesses, aspirações ou ideais para além da vida de trabalho e entretenimento.

A solução para fugir a esse encontro, para muita gente está no uso excessivo de televisão, computadores e outros aparelhos eletrónicos, que ajudam a matar o tempo. Outros entram numa espécie de hiperatividade pedagógica para manter as crianças em ocupação contínua, dado que ninguém está habituado a ocupar-se de forma autónoma e a partir de uma motivação intrínseca…

Mas a realidade teima em demonstrar que não é possível praticar, de forma emocionalmente sustentável, o outsourcing dos afetos.

A necessidade de relacionamentos de intimidade psicológica, de confiança e cooperação é um imperativo humano que nenhuma escolinha, nenhuma profissão, nenhuma autorrepresentação, nenhum valor monetário, conseguem satisfazer.

Será fácil voltar à rotina da segregação por idades, do consumo desenfreado e entretenimento fútil, logo que a pandemia passar. Mas poderá ser mais importante repensar o modo de vida, em que os afetos, os relacionamentos, estão sempre em segundo plano. Em que amigos só se encontram em caso de necessidade ou entretenimento; em que casais só conversam sobre questões de logística familiar; em que cada um está por si, tentando ganhar dinheiro para comprar um estado de satisfação que acaba por ser artificial e passageiro.

Não é possível externalizar os afetos. Temos que os cultivar de forma intensa, com tempo e dedicação. Não há profissionais que nos compensam pela ausência de relacionamentos de amor.

Felizmente, é um dos únicos pontos em que somos obrigados a assumir a nossa humanidade.