FIM

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É com um olho a rir e o outro a chorar que termino este ciclo. Dou por encerrado o meu trabalho de mais de dez anos na defesa da desescolarizacao e da parentalidade consciente.

Não que, na minha vida privada, deixe de viver os meus valores e ideais, mas decidi que iria deixar de dar a cara em público e atender de forma gratuita dezenas e dezenas de famílias relativamente a preocupações educacionais e escolares. Fi-lo com muito prazer, até porque não havia muita gente a divulgar formas de educação diferentes em Portugal e na Alemanha, mas sinto que agora, na Europa, o ensino doméstico e o unschooling já saíram da escuridão dos preconceitos e tornaram-se opções mais visíveis e aceites.

Para além disso, estou cansada de ver as minhas ideias distorcidas e atacadas por pessoas que me chamam de radical ou intolerante, e estou igualmente cansada de ver pessoas infiltradas neste movimento que pretende dar voz as crianças, que são pessoas que seguem doutrinas seitistas, fanatismos, pessoas da direita e extrema-direita ou pessoas que se identificam cegamente com correntes esotéricas New Age.  Isto mina, na minha opinião, a seriedade da minha causa e os fundamentos pelos quais eu e muitos outros pelo mundo fora deram sangue, suor e lágrimas na luta contra adultismo e indoutrinacao forçada.

Comecei este percurso com o meu filho, que agora tem 13 anos. Percebi logo que seria incapaz de aplicar as estratégias manipuladoras do arsenal pedagógico e torce-lo até que coubesse nos moldes esperados na sociedade atual. Decidi respeitar as suas necessidades e o seu ritmo, e notei que não tinha informação sobre educação, (apesar de ter sido professora!) a não ser a educação convencional autoritária à qual todos fomos submetidos e forçados a aceitar e considerar normal. Então, ainda com o meu bebe hipervigilante nos braços, um bebe que dormia pouquíssimo e exigia muitíssimo, comecei a minha investigação sobre desenvolvimento infantil, educação, pedagogia, sociologia, antropologia, psicoterapia, epigenética… Senti que, se desse espaço a um desenvolvimento individual (realmente original e único, e não aquele que todos chamam de individualizado mas que acaba por seguir os mesmos milestones, os mesmos passos previsíveis)- então iria contribuir para o desabrochar de personalidades cujas bases advém de um ambiente de nutrição emocional e não resultantes das carências e dos traumas do costume…

A minha grande dificuldade, apesar do apoio incondicional do meu companheiro, foi sempre a quase inexistência de role models, a ausência de pessoas que fizessem diferente e me pudessem ajudar a desbravar caminho. Então fui andando sozinha, mas apoiada pela minha família.

Quando o meu primeiro filho começou a falar com nove meses, e depois a ler e escrever aos três anos, sem qualquer instrução da minha parte, tive que repensar tudo de novo e iniciar as minhas pesquisas sobre gifted and twice ecepcional, sobre alfabetização e neurociência. Não havia maneira de enquadrar aquela criança em qualquer molde.

Quando nasceu o segundo filho, já eu estava firme na minha decisão de ignorar as vozes críticas e seguir a minha intuição e informação. Também o meu segundo filho cresceu fora de instituições, num ambiente tranquilo e estimulante que eu tentava proporcionar.

Entretanto fomos ficando conhecidos, fui convidada para palestras e debates e recebemos jornalistas e dezenas de famílias em nossa casa, vindas de diferentes países, todos com a preocupação de querer dar uma educação mais ampla, abrangente e original aos seus filhos. Recebemos particularmente muitas famílias alemãs em casa, os chamados “refugiados intelectuais” que tinham de abandonar o pais por não querer escolarizar os filhos; algumas chegaram a viver connosco durante vários meses, fugidas do sistema alemão de obrigatoriedade de frequência da escola.

Vimos crianças destroçadas pelo sistema, crianças deprimidas e desmotivadas, crianças super criativas mas diagnosticadas de hiperativas, autistas, asperger, NEE, crianças medicadas para se adaptar ao ritmo escolar, crianças traumatizadas por uma educação chamada “alternativa” das escolas de indoutrinacao como Waldorf ou semelhantes, pais que deixavam tudo para trás e saíam do pais para proporcionar uma escolha individual aos seus filhos.(Infelizmente também conhecemos crianças completamente negligenciadas e ignorantes, tanto entre os unschoolers como entre as crianças escolarizadas)…

Fizemos imensas amizades interessantes e os meus filhos cresceram numa casa onde se falava várias línguas e crianças e adultos de diferentes países partilhavam refeições, ideias e brincadeiras. Quando nasceu a minha filha, agora de seis anos, já não havia dúvidas para o seu percurso, e ela foi beneficiando das certezas e dos conhecimentos que adquirimos no passado.

Uma das minhas conclusões foi de que, independentemente da dinâmica de cada família, da sua nacionalidade ou capacidade financeira, o respeito pela autodeterminação da criança é a base para um desenvolvimento saudável. Ser auto-determinada significa que a criança seja respeitada nas suas necessidades e opções, que tenha o direito de dizer não (mas não significa que o adulto seja escravo das vontades da criança!) e que aja de acordo com a sua motivação intrínseca, e não por meio de castigos, recompensas ou ordens; uma criança que pode optar por seguir o seu ritmo biológico de sono, de alimentação, de vinculação com os pais, de exploração do ambiente e que receba estímulos, não invasivos, que aguçam a sua curiosidade, recebe assim uma base de confiança e autoconhecimento da qual beneficiará por toda a vida.

A segunda conclusão que tirei destes anos de unschooling foi de que é uma grande prenda não entreter os nossos filhos. Parece estranho, mas a dependência de estímulos e entretenimento externo é tao forte na nossa sociedade, que poucas crianças hoje em dia aprendem a ocupar se com interesses seus, individuais e genuínos. Geralmente, as crianças estão presas desde pequenas em teias de horários, entretenimento fácil e tarefas externas, alimentadas por imagens estereotipadas tipo Disney e afins, compras constantes e rodeadas de plásticos e ecrãs, de modo a que nunca chegam a aprender ocupar-se a partir de dentro e de aprofundar interesses durante longas horas e dias.

A tranquilidade, combinada com uma oferta cultural, artística e natural rica e variada, possibilita o aprofundamento em áreas que não se encontram em nenhum currículo, nem levam apenas 45 minutos…

A última das minhas conclusões-base destes anos é que cada criança, alias, cada ser humano, aprende da melhor maneira de forma autodidata. Se bem que se pode aprender com bons professores e tutores- a verdadeira aprendizagem tem de vir de dentro, resultante de uma motivação intrínseca e dos interesses pessoais; desde que motivada, uma pessoa aprende tudo o que quer e precisa. Tenho exemplos vivos disso: conheci inúmeras crianças (incluindo os meus próprios filhos) que aprenderam sem qualquer instrução as técnicas culturais como a leitura e a escrita, aprenderam música, historia, literatura, arte, biologia, carpintaria, culinária, olaria, futebol, basquete, zoologia, taxonomia, astrologia, física, matemática, informática, diversas línguas e qualquer outra área que achavam interessante e que despoletou seu fascínio. O essencial é que saibam COMO aprender, ONDE procurar informação e que tenham interesse e vontade em descobrir o mundo. E para que mantenham o interesse em descobrir o mundo, necessitam de uma vinculação segura aos pais e de liberdade para explorar, sem constantes limitações de horários, sem pressão e sem intervenções e críticas dos adultos. A partir daí, tudo parece possível.

Retiro me agora desta luta publica pela liberdade na educação, mas continuo a viver essa liberdade com a minha família. Porque, uma vez que decidimos aceitar o desenvolvimento, os interesses e as necessidades de cada pessoa, não conseguimos, nem faz sentido, desaprender esse modo de vida.

Lamento a confusão que anda em muitos meios alternativos- e não só- entre vontades e necessidades, entre egocentrismo e libertação, entre negligencia e não- escolarização. Igualmente lamento que qualquer família se acha alternativa e qualquer escola igual ao litro se considere diferente… Sempre me incomodou o seitismo e a desinformação, e sempre me mantive longe de movimentos que promoviam crenças cegas ou dogmatismos.

Relativamente à minha vida privada que tantos me tem perguntado, tenho novos projetos. O meu filho mais velho optou por ingressar na escola publica este ano letivo. Apesar de muita gente no meio homeschooling achar que sou falhada por ter um filho que vai para a escola (!!), não vejo qualquer incoerência. Defendo e sempre defendi o respeito pelo desenvolvimento individual da criança e vejo a opção pessoal do meu filho como um sinal de maturidade e autoconhecimento.

Teve as primeiras aulas da sua vida aos 13 anos, no 8. ano de escolaridade. Dado que foi sua própria escolha, está motivado e teve uma ótima adaptação, ótimas notas escolares e sucesso em todos os aspetos. Já o meu segundo filho, de agora 10 anos, não se sente forçado a frequentar a escola só porque o irmão o faz. Para já, prefere continuar a sua vida livre de instituições, na companhia da irmã de 6 anos. Qualquer que sejam as suas opções, serão apoiados por nós, pais.

Mudamo-nos há pouco tempo para uma quinta com muitos hectares de floresta, rochas, rio, fontes, prados. Não temos eletricidade nem água da rede, mas painéis fotovoltaicos e água da própria fonte. Temos cavalos, cães, galinhas, patos, etc. e trabalhamos no home office. Temos inúmeras ideias e novos projetos para os quais agora irei canalizar a minha energia. As crianças estão crescidas, tem personalidades fortes e excêntricas e tem uma ótima relação entre si, connosco e com os seus amigos.

Obrigada a todos que confiaram em mim, que leram os meus livros e viram as reportagens, o filme, o podcast, leram o blogue, participaram no grupo, contactaram e visitaram me ao longo da última década.

Até sempre.

Agnes